Hegel e a conversão europeia da história - continuação
Eliane de Marcelo
este texto continua o blog do mesmo nome que foi interrompido por sabotagem da página, a partir de ação contra nossos direitos de acesso e uso da internet a despeito do que pagamos;
continuação / este texto iria finalizar a página referenciada, de modo que o início do "segundo livro" do estudo iria começar nesta. Mas como nem esse pequeno trecho pode ser postado devido à sabotagem, fica aqui o pedaço que faltou lá.
A esquizofrenia do personal computer é óbvia. Podemos ter quantos blogs quisermos, mas não todos os textos publicados num blog só. O espaço ocupado é o mesmo, mas o direito do leitor ter sua leitura coerente, não. A política de impedimento da inteligência seria ridícula, se não fosse caso de polícia em qualquer país que merecesse esse nome como constituição da legalidade. E se as academias universitárias não servem para garantir o trânsito da livre inteligência, não sabemos para que serve, além do monopólio da burrice.
Os
nojentos protagonistas da imposição de personal computer internet
na política de restrição de acesso, dominação da consciências,
segregação de pessoas que a caracteriza, se gabam de serem
primeiros de tudo, porque a microinformática é algo novo. Realmente
nunca se viu tamanha desfaçatez, tamanho fascismo paranoico sádico.
Porém ninguém diria que a exacerbação do sintoma é algo novo
relativamente ao mesmo.
(...)
Nesta
designação, ao
ver de Althusser ocorre
na
dialética de hegel um
movimento estranho,
que ao
avançar estaca.
Mas
a estranheza não é o estatuto do paradoxo. Inversamente, o
que em Hegel ganha o estatuto do paradoxo é em que se poderia
iguala-lo
a Marx, ou ao menos considera-lo predecessor de Marx. Trata-se
do ser da dialética.
Althusser
a interpreta em termos de alienação,
o mesmo que
negação
da negação, Aufhebung em vista da síntese. Negar
é sempre
alienar algo. A
alienação de que se trata em
Hegel não
é contudo do homem, inversamente a interpretações correntes.
Ela
é primeiro
negação
do Espírito como Lógica, pela Natureza.
E só
então vem a História dos
homens, que
por
sua vez é negação dessa negação que veio a ser a Natureza.
Ora,
o que conhecemos de Hegel faria aqui, nesse vir a ser da História
dos homens,
a intercessão do Sujeito como autoconsciência. A História não
existiu sempre, mas quando ela veio a existir como Ciência, na
transição ao século hegeliano, isso
acontece porque estava do mesmo modo tornando-se pensável a
subjetividade na filosofia. A
conclusão de Hegel a propósito dessa coincidência absoluta - o
que não quer dizer fortuita de modo algum - é
que o Real ele mesmo é subjetividade, uma vez que é pensável e o
caráter do pensamento é subjetividade. Deus e o Real são o mesmo,
ambos
subsumem o estatuto da Ideia.
Se
há algo mais para ser colocado em termos conceituais, não é de
novo a Aufhebung, já exposta como, inversamente, o que pavimentou o
caminho até a autoconsciência.
Mas sim a duplicidade que os termos assim colocados revelam.
A
autoconsciência vem a ser, num momento, mas como um caráter do que
sempre foi, portanto não apenas nesse momento. Em
Hegel,
ao contrário do que ocorre desde o positivismo em diante, não
há o problema do vir a ser do eu como realidade da consciência,
este é fato primitivo
- assim desde Rousseau e por todo romantismo.
Porém
como pôde observar Hegel,
assim como não havia antes a ciência do fenômeno, do que está em
devir, não
havia a subjetividade a conceituar como o referencial da
filosofia,
apenas o intelecto correlato da episteme limitada à metafísica,
o universal abstrato, a-histórico. O que também
não
significa obviamente que a realidade não
era
histórica antes.
A
duplicidade inerente ao termo História, a ciência e a efetividade,
reproduz a que vimos inerente à autoconsciência, a filosofia e a
consciência. Essa
duplicidade não é fortuita, ela é o caráter da Entausserung, a
extrusão do
ser,
que primeiro é o que deve ser depois negado, tornando-se então
o
que efetivamente é, ou seja, vir a ser, devir - história,
autoconsciência.
O
Espírito,
Ideia,
o que primeiro é Ser, é Extrusante - extrusado. Assim
o Real tornou-se pensável como
devir, uma
transformação formidável da filosofia, que porém é compreensível
nesse âmbito da revolução epistemológica do evolucionismo.
Althusser
não trata da Entausserung. O que ele coloca nesse ponto é,
inversamente,
novamente a Aufhegung. O
que
Hegel acrescenta à
dialética
como processo sem sujeito,
pelo modo como a
estabelece.
É a
teleologia
que restaura o enunciado do sujeito na razão mesma da alienação.
O
paradoxo veio antes, é o determinante puro da Aufhebung.
O
processo de alienação sem sujeito seria
até aí
o único sujeito reconhecido por Hegel. O paradoxo consiste nisso
pelo que o processo mesmo é sujeito só na medida que não tem
sujeito. Porém
quanto à reinserção do sujeito, o
raciocínio de Althusser é como segue. Primeiro,
reitera-se que o
sujeito seria
a teleologia. O
final do processo é a sua origem. Mas na origem não há sujeito
porque ela é negação, a origem foi negada no instante mesmo em que
foi afirmada. Então
não há sujeito.
Em seguida, porém, Althusser volta
a afirmar que há. Se a negação da origem assim que a origem é
posta, é um procedimento hegeliano que corresponderia ao conceito
derridiano de rasura, conforme Althusser,
"a rasura hegeliana que é desde a sua primeira palavra a
Lógica, é negação da negação, dialéctica teleológica,
portanto. É na teleologia que se alberga o verdadeiro Sujeito
hegeliano. Abandone-se a teleologia e ficará aquela categoria
filosófica que Marx herdou: a categoria do processo sem sujeito".
(in "Hegel e o pensamento moderno", op. cit. p. 136).
Embora
não
haja
no
texto algo
que explique essa
transição da Aufhebung sem
sujeito
à teleologia que ela mesma é como
sujeito,
a dívida assim considerada se anula de imediato. O
que na dialética podia ser considerado a
dívida de Marx relativamente a Hegel, simplesmente
deixa
de o ser. Só
Marx inventou
o
processo sem sujeito
que define o que a dialética poderia
ser, como o que ela é na origem,
um paradoxo.
O
processo só retorna à origem, só se libera "sem sujeito",
porque em
Marx
também
algo
mais se tornou o referencial do processo, como seu
determinante. Esse algo são as relações de produção
em O Capital, relações políticas e ideológicas alhures. E
aí Marx já nada
deve a Hegel. O
paradoxo foi resolvido, mas não estacando-se o movimento de
superação da
ideologia.
Porém
não fica claro pelo exposto althusseriano, se esse movimento e a
ciência que ele franqueia pode ou não ser ainda designado
dialética.
A aufhebung não integra
qualquer dos momentos expositivos do que é o processo sem sujeito
marxista.
Marx
é reencontrado,
ao invés de precedido. E
por Freud, cuja obra também se desenvolveria como um processo sem
sujeito. Como sabemos, Freud é atribuído o inventor do
inconsciente, e Marx aqui é atribuído por Althusser o inventor da
ciência da história e da filosofia dessubjetivada.
Pelo
que vimos, toda
vez que um processo sem sujeito for introduzido, teremos a invenção
de alguma coisa. O processo
segundo Marx, pelo
que podemos deduzir do que concebe
Althusser,
não pode não ter um complemento
-
ao contrário do verbo escrever na modernidade segundo Barthes,
como poderíamos acrescentar. Processo
"de"
alguma coisa, não a teleologia de si mesmo. Mas
o
complemento não é justamente
o
sujeito do processo?
Por que motivo não seria? O problema do modo de produção, mesmo da
maneira
simples como Hindess-Hirst o colocou, não é justamente ter
subjetivado - isto é, reduzido a si - a sociedade e a história em
função do seu
processo como o determinante de ambas?
Em
todo caso, a crítica de Althusser a Hegel está nos antípodas da
que
vimos em Hondt.
Pois
em Althusser é justamente porque em
Hegel a
Ideia não
permanece na total pureza de sua autonomia, porque ela se deixa
confundir com a história limitada
a ideologia
e não ciência, ação dos homens quando giram como moinhos e não
funcionamento
da
máquina determinante,
é
que o avanço de Hegel estaca.
Não
que o paradoxo deixe de ter eficácia em algum momento. Conforme
Althusser, Hegel de fato fala de povos, e com verdade a seu ver, de
"momentos do desenvolvimento da ideia". (p. 133) Para ele
só estes poderiam ser considerados sujeitos da história em Hegel,
opondo-os ao conceito de "homem" neste estatuto, mas a
expressão sujeito da história seria apenas para contentar
os obsecados, não o significado nuclear do processo. A teleologia
que
rasura a rasura, torna ao sujeito em sentido próprio, o que
compromete a dialética como o processo sem sujeito.
Mas
conforme nossa indagação,
complemento do
processo não
é
sujeito
dele,
ao que parece, na concepção de Althusser, se
o complemento são as
relações
que submetem
o
processo -
em Marx, como vimos, as
relações de
produção, políticas e ideológicas.
Mas nesse trecho decisivo, Althsser não define o meio termo que
permitiria,
ao passar-se de "processo"
para
"relações",
e do processo/relação, enquanto
de produção, políticas e ideológicas,
para,
justamente,
a
"ciência da
história".
Se estabelecer um processo, digamos, autônomo, é abrir uma ciência
e ultrapassar a ideologia, e se processo é função determinada por
relações que o submetem, qual foi o conceito que autorizou reduzir
todas as relações
históricas
a relações de produção, políticas e ideológicas?
Como é que elas se tornaram histórico-científicas por essas
relações que em si não
são
necessariamente
processo histórico, isto é, oriundas de
relações históricas entre
si?
Em Althusser, pelo
contrário, se tornam atribuíveis históricas apenas pelo que numa
atualidade
são relações de determinação econômica, e nessa determinação,
também de determinação política e ideológica.
"Também"
aqui coloquei por minha boa vontade, já que o problema do
texto althusseriano é
justamente esse.
O
que tem a ver determinaçaõ política e ideológica com determinação
produtiva e/ou histórica, se
a história como ciência marxista
segundo Althusser é
o que expulsou toda ideologia como uma determinação histórica
possível
oposta à que ele atribui ao marxismo, logo,
sem determinante além dos sujeitos que agem com o sentido que dão
ao que fazem?
Mas Althusser opõe "processo" como termo científico a
"sujeito" como termo ideológico.
A
maquiagem retórica foi feita do seguinte modo. Em
vez de
o
que
os sujeitos fizeram, mesmo conforme os imperativos das instituições
que esses sujeitos criaram,
trata-se da
matéria
da história. Mas como as duas coisas não são a mesma?
A
metodologia althusseriana consiste, como se explica, na
determinação de uma matéria prima, sobre a qual se faz passar ou
trabalhar meios de produção teórica para produzir um resultado.
A matéria prima seriam as relações Marx-Hegel, os meios de
produção é o texto marxiano e "algumas
outras categorias",
o resultado seria o que o Lire le capital já dissera a propósito
dessas relações
(p. 118).
O
processo continuaria tal que a matéria prima seria agora a relação
a julgar mais ou menos errada, entre o texto marxiano e as ditas
categorias (não definidas), etc. Althusser
considera que esse círculo "interior" tem que estancar em
algum momento: "não podemos manter-nos neste círculo interior:
para avançar, é preciso passar à experiência da luta de classes."
Mas
é o que podemos considerar como essa experiência, como luta de
classes em vez de outra coisa, o que está em questão quando se
trata de Marx
e suas
relações com Hegel.
Se em ambos trata-se de desenvolvimento, que fator histórico
explicaria
o
deslocamento do Estado constitucional hegeliano
como
realização dos direitos dos sujeitos, pela Luta de Classes
marxista? E
o
que
ela realiza - pergunta que incide evidentemente pelo seu sujeito, mas
também pelo seu objeto. Não
ocorre a palavra "proletariado" em todo o artigo que
estudamos,
apenas as expressões
"movimentos revolucionários", "movimento operário",
e "militantes revolucionários da luta de classes".
Quanto
à ciência da história, que teria sido só a descoberta por Marx,
Althusser
fala dela como um continente. Se
Marx o descobriu,
os intelectuais ainda não se deram conta,
a não ser para "o
anexar e explorar como uma
vulgar colônia",
quando, conforme aduz Althusser, seria necessário explorá-lo "para
o libertar dos seus habitantes'', a rota para lá se tornando-se
conhecida apenas por seguir-se "os militantes revolucionários
da luta de classes"
.
Fiquem
estas perguntas por aqui, o estado do exame do juízo de Althusser
sobre Hegel nesse ponto. Em
suspenso, pois, o ataque aberto à dialética e à história não
reduzida à ciência da estrutura, entre o Pour Marx e o Lire le
capital. Para
os propósitos da presente exposição, é bastante por ora lembrar
que tampouco a dialética enquanto a do senhor e do escravo, e a
história como desenvolvimento da liberdade, foram
tanenciados na obra althusseriana. O pivô da crítica é
sempre e apenas o misterioso "sujeito".
A
trajetória subsequente é de aprofundamento radical da hostilidade a
Hegel, de
Althusser ao pós-estruturalismo de origem nietzschiana. Não se
tratou de simples abandono. Não se procedeu como se
novos
problemas e novos
conceitos
suficientes
para os atender houvessem emergido,
de modo que Hegel devesse estar de direito esquecido, se já não o
estivesse de fato.
Mas sim, sempre, como se um inimigo precisasse ser cercado e
eliminado. A posição da filosofia oscilou bastante.
O
ataque ao inimigo hegeliano
é bem nítido no confronto de Derrida,
em A escritura e a diferença,
contra a dialética
como uma nescidade do trabalho: a vida, mas que vida, se o trabalho é
o avesso da vida? Hegel é aí a senha de toda filosofia, assim
como de toda ciência que atá o pós-estruturalismo, apenas
descendeu dela, tudo bem criticado como um
logocentrismo à Heidegger, exceto
por ter este ainda rasurado algo
- quando não há ser algum para rasurar,
quando se trata da descoberta da
"diferença".
Deleuze,
numa
carta
a Michel Cressole
conforme
citado
por Michael
Hardt,
não
fez apenas um motejo:
"O que eu abominava acima de tudo era o hegelianismo e a
dialética" ("Gilles Deleuze, um aprendizado em filosofia.
São Paulo, ed. 34, 1996, p. 10). Também
utiliza Hardt o termo "inimigo fundamental" (p. 31).
Porém
aqui Hegel não é a filosofia, mas sim Nietzsche, e, por enquanto,
tudo que for reversão do platonismo. Uma
vez que a carreira de Deleuze intercepta o marxismo althusseriano,
especialmente em O Anti-Édipo escrito com Guattari, é
interessante que Hardt tenha destacado, em meio à complexidade com
que desenvolveu o tema desse antagonismo deleuziano
a Hegel,
o
modo como Deleuze mesmo posicionou as relações Hegel/Marx.
Conforme
o interesse presente,
assim resumindo muito, devemos
destacar
apenas
que o pivô é a condenação da dialética de Hegel por
ser uma filosofia do trabalho.
O marxismo tornou-se interpretado, enquanto dirigido contra Hegel,
como "crítica insurrecional", algo que Hardt reporta,
primeiro como o viés pelo qual Deleuze aproximou Marx e Nietzsche:
ambos, contrariamente a Hegel, e operando conceitualmente por meio da
explicitação dessa contrariedade, "concebem
a essência real não como trabalho, mas como força: a vontade de
potênciam o trabalho vivo, a criação". (p. 84) Mas logo essa
espécie de recuperação da categoria trabalho - como força oposta
a essência - cede
a uma perfeita
"recusa
do trabalho",
que serviu também
como slogan e categoria analítica do marxismo italiano entre
os sixties e os seventies. (p. 85)
Possivelmente
algo que estava na raiz do maio de 68.
O
principal do que seria a crítica de Marx
a Hegel,
enuncia-se melhor como a recusa nietzschiana da
dialética do senhor e escravo, mas não da categoria do senhor
hegeliano.
Como
podemos ver em Nietzsche e a Filosofia, de Deleuze,
tudo o que Nietzsche condena como má consciência é
copiado da categoria hegeliana do escravo como sujeito da consciência
de si que realiza como autoconsciência na história o
desenvolvimento como libertação.
Ao contrário, o senhor que Hegel opõe ao escravo, é em que
Nietzsche se baseia para conceituar a
Vontade
de Potência.
Essa
segunda inversão de Hegel apenas repetiria a primeira - e Deleuze a
princípio não nega que Marx inverte.
E isso pelo
seguinte
motivo,
como podemos apurar na exposição de Hardt. Assim
como Marx observou para a categoria hegeliana
do Estado
moderno, que ela confunde algo que é - efetivamente atual - como a
essência do Estado, para Nietzsche o escravo hegeliano é a
essência da consciência de si, porém de fato é apenas aquilo que
existe numa relação com o senhor.
Conclui
Hardt que operando o paralelismo dessas duas críticas, na filosofia
deleuziana "Nietzsche aparece na posição do trabalhismo
marxista", e Mario Tronti é aqui citado como exemplo da mesma:
"Para lutar contra o capital, a classe trabalhadora deve lutar
contra si mesma enquanto é capital... Luta dos trabalhadores contra
o traballho, luta do trabalhador contra si mesmo enquanto
trabalhador". (p. 85)
Mas
o ódio de Nietzsche contra toda
igualdade da condição valorizável, porque
a desigualdade fundamental é o transcendental do senhorio, uma vez
que a posição assumida de Nietzsche foi pela aristocracia, fica
assim abstraída.
De
fato Nietzsche não
valoriza o trabalho justamente por ser atributo da classe não
aristocrática. A
aristocracia em Nietzsche, de um modo que aristocratas reais talvez
não gostasssem de ouvir, não é a que batalhou num momento da
história para conservar o território da naçaõ. É
a
que manda,
integrada pelos que
põe suas forças concertadas com os meios, violentos e ideológicos,
pelos quais assegura seu domínio sobre os que tornam-se sujeitos de
obrigações para consigo, e primacialmente da obrigação de
identificar-se aos
valores impostos pela aristocracia.
Nietzsche
não elimina o trabalho,
jamais propõe esse slogam,
mas o faz
uma categoria da obediência
necessária
à ordem de coisas provista pela natureza da Vontade de potência.
O escravo é o que é porque sendo
fraco se
contenta em obedecer, capitula na luta que promove o senhor forte
com
esse objetivo mesmo, dominar escravos.
O
objetivo de ser senhoir atesta que ele é forte, e se ele é forte
então é senhor como aquele que tem esse objetivo. Já horrorizar-se
com isso ou revoltar-se contra isso é ser fraco já pelo pensamento
mesmo.
A
posição senhor e escravo é o protótipo natural
- arranjo das forças físicas e inconscientes - de toda posição
dominante e dominado, como razão mesma do ser das forças, clivadas
entre ativas e passivas
assim como entre Vontade de potência de seres fortes e fracos.
Por
um lado,
a abstração da
aristocracia nietzschiana é
feita como contradição simples. Ao criticar Hegel porque a
autoconsciência que o escravo realiza é ao mesmo tempo do escravo e
da essência, apenas a mesma condição é reexpressa para o senhor,
mas como se não fosse. "O
movimento que define e revela a essência não pode desenvolver-se
com um ator
qualquer, porque é dependente de uma posição específica na
relação. Nós vemos, naturalmente, que o senhor não concretiza
esse movimento", e, portanto, por não ser senhor, "o
trabalho do escravo não pode ser considerado como energia criativa
ou força produtiva, ao contrário, o trabalho do escravo é
fundamentalmente seu papel numa relação 'fixa'". (p. 83,4).
Tal
primeira abstração impede pois compreender a economia efetiva dos
impérios escravistas, os
antigos
e
os
modernos-coloniais,
se a economia é produção. Com efeito, na lógica da produção do
Anti-Édipo, não há qualquer menção ao escravismo como meio de
exploração econômica,
antiga ou moderna.
A
contradição porém, nem é isso,
que configura apenas outra abstração. Ela se expressa porque o
senhor é colocado como ao mesmo tempo sendo e não sendo a essência.
Ele
é menos ainda que o escravo
hegeliano,
pensado
como categoria relacional. Ele é a Vontade de potência encarnada, e
esta é a natureza em si
- ao mesmo tempo transcendental, e conforme Hardt considera, para
Deleuze Nietzsche inverte primeiro e fundamentalmente a Kant.
Em
Hegel de fato a contradição da essência apontada inexiste, posto
que o escravo se
torna o que é por ter sido escravizado
num
momento do tempo,
e não por ser uma essência desde sempre.
Mas
ele se torna autoconsciência por
ele mesmo, uma vez que
ele tem o que negar à efetividade, não se confunde mais com a
natureza, faz-se homem na cultura. Assim
da
libertação da escravidão como da
dominação em geral, que
ocorreu na história
- lembrando não só a cisão de antiguidade e modernidade, mas a
contemporaneidade
de Hegel à libertação dos escravos na América -
poderia ser dito tudo, menos tratar-se de uma relação fixa.
Em
seguida, a abstração do
aristocratismo nietzschiano é feito pela temática do super-homem
como espécie
evolutiva do homem. Uma fantasia que não tem amparo na genética ou
na biologia, mas que é o fiat da
alegoresis zaratustriana de Nietzsche. Ora,
este prega assim a destruição do ser humano. A evolução
aconteceria tanto como da espécie (biológica) como produzida
por um consentimento autodestrutivo do ser humano. Nietzsche criou
assim um valor, o da destruição ativa do homem pelo homem, e Hardt
(p.
85) considera
que o slogan recondutor da luta de classes como luta contra o
trabalho, é um outro modo de expressar essse valor, "uma
bela maneira de compreender"
o ser humano que quer perecer, ser superado, de
Nietzche.
Toda
luta de hoje seria pois,
conforme Hardt,
dirigida contra a essência humana, somente após a destruição de
que o homem "pode ser verdadeiramente capaz de criar", mas
assim obviamente
subentendido
que criará não a si mesmo.
Nessa
alteridade estranhíssima
que é o super-homem como o que o homem, negando-se a si mesmo, deve
criar - sem que essa
negação
fundadora seja dita dialética -
não considero que haja algo para se ver além do superego e sua
ordem destrutiva
da aptidão à
relação, submergida
a psique
no fascínio do signo
puro. De
modo que o retrocesso sádico impregna a invectiva contra os "fracos"
- que substitui a
contra o capitalista.
Uma
característica sintomática
é
a oposição de criação e trabalho.
Ela implica impossibilitar
qualquer desenvolvimento da
questão
do trabalho
na história e na natureza,
apenas por uma
referência que não extrapola jamais a identidade
trabalho-obediência, cuja função é eliminar de todo a
questão.
De
fato, o Anti-Édipo explica o capitalismo por algo bastante honroso,
ele sendo a verdade "esquizofrênica" do desejo, e a
colonização resultando no progresso maravilhoso que é a vocação
aventureira que só os brancos possuíram um dia.
E
mesmo
se pode dizer que nisso Deleuze não inova nem foge à regra. De
Marx em diante, se há sujeito na história, para
o bem ou para o mal, para ser assim ou superar-se, se
a consciência é egoica quando adulta e desenvolvida, é isso o
epifenômeno do capitalismo
ocidental.
Não há o fim saudável da história sem o capitalismo como
determinante. Esse
sintoma
é o que devemos estudar propriamente.
Vemos
pois que mesmo experientes
alunos de Lacan ou seguidores críticos de Freud, os
pós-estruturalistas seguiram o superego nietzschiano. Na
altura dos anos oitenta, a
emergência do locus "pós-modernista" na teoria, pelo
contrário, expressou-se como um novo novo hegelianismo.
Compreensivelmente crítico da posição contrária a Hegel, que
vinha sendo dominante.
Esse
movimento não foi de modo algum desconhecido no Brasil, porém tem
sido severamente censurado pelos departamentos universitários. No
final dos anos noventa, por adeptos da Escola de Frankfurt, mas desde
a ditadura do PT, ao contrário, por
adeptos do pós-estruturalismo.
Há
muitos
importantes
expoentes pós-modernos que
se exercitaram como teóricos do
novo novo hegelianismo.
Em geral há um interesse na forma pelo qual Hegel é o substrato de
toda a construção positiva, que porém só se expressa como se
fosse ao mesmo tempo que a inversão, totalmente outro relativamente
a ele.
Mas
Hardt concentra-se apenas
em
Judith Butler. Em
Subjects
of Desire,
ela teria replicado a Deleuze que uma posição inteiramente fora do
hegelianismo é impossível, posto que este abrange em termos
dialéticos, justamente o movimento da oposição.
Hardt
considera
que a princípio, a oposição que Deleuze faz a Hegel não é
dialética.
Mas
depois, que Deleuze dependeu dessa oposição apenas numa fase
inicial. Após o que, tratou-se para ele de uma contestação
traduzida na fórmula do esquecimento de Hegel.
Porém Hardt não se
lembra que Deleuze esqueceu também sua posição inicial de
contrafacção do platonismo.
Em "o que é a filosofia", Platão aparece como já não
nos antípodas do estoicismo greco-Zen, mas como
o pai do conceito que, axiomatizando a filosofia, a torna
substancialmente antitética ao Oriente
pré-conceitual. Atrasado mental, o Oriente e o terceiro mundo -
desde Cinema 2...
O
motivo pelo qual suspendemos a caracterização minuciosa desses
referenciais, é que só poderemos continuar o texto num outro
espaço,
em que trato porém
o
desenvolvimento da questão da história em Hegel.
// este parágrafo informa, na página do blog original, a interrupção e a mudança para este; a partir daqui, continua o texto deste meu estudo; conclamamos intervenção policial contra o descalabro de óbvia invasão da minha conta e computador por agentes desconhecidos que o estão ilegalmente monitorando sem que saibamos também como o estão fazendo, configurando porém todas as intervenções abusivas constadas, prejuízo dos direitos de expressão e recepção da mensagem, invasão de propriedade e de privacidade ///
...
...
/// Hegel: Real, Consciência,
História
Em
Hegel, a liberdade como uma conquista revolucionária a partir porém,
a mais
de um fato da tomada do poder, da consciência
de que assim é preciso, direito e necessário - ou seja, necessário
só para essa
consciência
(que
atuou historicamente)
-
não
está pois, fora
do âmbito da
sua atuação.
Não
se trata de teleologia das coisas, de
Ideia acima da
consciência que a pensa.
Após
termos
observado
como Althusser tratou aquilo
que, bem ou mal, Hondt atribuiu como a antecedência da praxis
hegeliana pelo materialismo marxista, vejamos como podemos situar a
conquista revolucionária em Hegel.
Este
encaminhamento
do exame é
um modo de contrafazer a utilização do próprio Marx contra a
revolução,
que partidos ditos de esquerda vieram desde o século passado
implementando,
como
constatamos acima.
Resta porém necessário, uma sumária prestação de contas a
propósito desse
estranho fenômeno. Ele não é coextensivo
ao incremento do terrorismo, sub-produto das guerras de
descolonização. Inversamente ao terrorismo, onde coalesceu pelo
nacionalismo um
significado mais
determinado quanto ao objetivo da ofensiva contra a escravização,
as
tendências que orientaram os partidos de esquerda como vimos
a desdefiniram.
Mas
isso isso seria inteiramente compreensível se o aristocratismo
nietzscheísta figurasse
em filigrana quando se tratavam de
partidos marxistas. Pararelamente
o cristianismo que se irmanava a estes partidos desde os anos
cinquenta sob o comum empreendimento humanista, não era o
democrático
de
Hegel, mas o catolicismo populista,
sempre na proximidade do fascismo.
Nesta
tendência religiosa, a Escola de Frankfurt se reordenou, não sem
relações com a hermenêutica pós-heideggeriana.
O
"sentimento do senhorio" sobre que Hegel se expressa
criticamente
na
Fenomenologia do Espírito, passou a slogan do
marxismo
transmutado entre
nietzscheísta e tomista. Seja
como for que se trate a questão das relações entre o proletário
marxista e o cidadão hegeliano, jamais
ela atingirá o cerne do que estava situado nas controvérsias
relacionadas
a esse slogan
do marxismo na clivagem nietzscheísta/tomista
do século passado.
Pois
já não se tratava do proletariado como o sujeito da contestação,
mas do "bandido"-
tecnicamente o "delinquente" - ,
como na caracterização de Foucault, para quem a cisão de
proletariado
e de bandidagem era produto
discursivo da burguesia para domar assim ao primeiro.
"Quanto o sindicato se constituiu", comentou, "ele
teve que se dissociar, a fim de se fazer reconhecer, de todos os
grupos sediciosos e de todos aqueles que recusacam a ordem jurídica".
(coleção Ditos e Escritos, "Foucault, estratégia,
poder-saber", Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2006, p.
143).
Mas
que significa aí "ordem jurídica"? Não se trata de
contestação a legalidades dúbias, que poderiam caracterizar abuso
da lei por parte de poderes corruptos, mas do comezinho abuso dos
direitos humanos por parte de indivíduos particulares. O que o
proletariado quer fazer reconhecer assim que se organiza,
erroneamente ao ver de Foucault, conforme ele expressa é que "não
somos assassinos, não atacamos nem o povo nem a produção; se
cessamos a produção não é num ímpeto de destruição total, mas
por causa de exigências bem particulares"
na circunstância da greve.
O
que pretendeu o proletariado,
se era
"fazer admitir sua respeitabilidade", e isso, como "a
virtude popular do operário, o bom pai, o bom marido, respeitosos da
ordem jurídica" para Foucault significava
tão
somente "a
imagem que, a partir do século XVIII, a burguesia deixava
transparecer e impunha ao proletariado, a fim de desviá-lo de toda
forma de agitação ou de insurreição violentas, de toda tentativa
de usurpação do poder e de sua regras".
Porém,
se assim ficaria inexplicavelmente estirpada da história nada menos
que a Revolução Francesa,
quanto
ao antigo regime senhorial Foucault se coloca como simpatizante:
"Pode-se também
afirmar que, apesar do rigor do sistema, sob a monarquia, o controle
da sociedade era muito mais fraco, mais largas as malhas através das
quais passavam os mil e um ilegalismos populares."
(p. 154)
Aqui a delinquência já não
é o assassinato ou quaisquer outros abusos do direito de outrem, mas
"o contrabando, a pastagem abusiva, a colheita da lenha nas
terras do rei", que não obstante serem objeto de severas
penalidas, "na realidade não ocasionavam perseguições",
pois "entravam no jogo do sistema, tal como continuam a entrar
nele em certas realidades econômicas e sociais particularmente
atrasadas". (p. 155)
As
penas eram brutais
quando
aplicadas, mas eram aplicadas mais como aparato estético de
glorificação da soberania contra quem lesava a sua autoridade
- quanto ao aspecto estamental (classista) dessa autoridade, Foucault
não se lembra, nem que ela estava sustentada pela burguesia
monopolista-colonialista
associada à aristocracia,
contrária à burguesia trabalhadora tanto como ao proletariado,
este dois grupos que associaram-se na Revolução.
Não
havia na
aristocracia senhorial,
conforme o proprio Focault,
propriamente
a noção de legalidade constituída em função da consciência dos
direitos humanos.
Mas
que tenha sido essa consciência o que veio a coalescer na história,
como se pode atribuir a Hegel ter afirmado, não é que Foucault não
considere.
Mas
sim, e mesmo se com relação à história do direito venha
significar o abrandamento das penas e a invenção
da polícia moderna, para Foucault eis tudo que é contrário à
liberdade. A polícia, que consideramos a consciência dos direitos
humanos por sua atuação constitucional, para Foucault é produzida
pela burguesia do mesmo modo que o proletariado, com o mesmo objetivo
estranhamente concebido como de dominação pela legalidade enquanto
atribuição
dos direitos.
Assim
o proletariado não
estava agora mistificado pelo que Marx imputava à ideologia, a
fantasia da unidade não classista-conflitiva
da produção capitalista. Mas
sim por considerar
que o avesso da ideologia era a mesma razão conflitiva. Ou
seja, por considerar-se proletariado e não delinquente.
Se
não
havia razão
na história, conforme
Foucault, o proletariado, na medida que não-proprietário,
era estruturalmente o mesmo que o delinquente.
Foucault
não equacionava os conhecimento sociológicos que não comprovaram
qualquer proeminência de classe não-proprietária na taxa de
crimes, pelo contrário.
Conforme Herman Manheim, em seu estudo sobre a Criminologia
americana: "Não foi apenas laborioso, foi também corajoso e
impopular,
provar que não foi na verdade o imigrante, mas o branco nascido na
América, o principal responsável pela alta taxa de
crime;
que a sociedade americana, e não
o
negro,
tinha a responsabilidade por grande parte do crime dos negros... E,
por fim talvez exigisse mais do que a coragem normal para mostrar,
como o fez Edwin H. Sutherland, que algumas das mais poderosas
empresas comerciais americanas eram, na verdade, 'criminosas
habituais'' (Bottomore,T. B. "Introdução à sociologia",
Rio de Janeiro, Zahar, 1970, p. 273).
Mas
a sociologia e quaisquer pesquisas a sério da realidade,
devia ser descartado de início para
Foucault, como
assujeitamento burguês,
conforme a
sempiterna
repetição
do slogan
desse novo marxismo nietzscheísta.
Além
disso, o sentimento do senhorio como o imperativo do slogan era tão
insistente como lacunar.
Pois
como exemplifica
o texto derridiano
"Da economia restrita à economia geral: um hegelianismo sem
reserva",
ele é o único referencial do inconsciene saudável, mas não se
especifica qual é o correlato do senhor. Quem é o escravo?
O caráter relacional ("dialético") do termo senhor-
na acepção de maitre - que
não subsiste sem o termo escravo, se tornou abstraído inteiramente,
sem que o fosse porém o próprio termo.
Poderíamos
esperar assim um esvaziamento total da esquerda como tributária de
qualquer confiança do eleitorado. Pois o que se torna óbvio é que
o
nitzscheísmo e o tomismo não
resultam
num qualquer
projeto coerente da tomada do poder. Ela se limitaria
a pretender cinicamente a dominação sobre a
população, domínio de um tipo sem qualquer
relação com a consciência da legalidade como dos direitos
subjetivos.
O
efeito desse redirecionamento indesejável da esquerda
especialmente pelo nietzscheísmo,
que
se expressou
entre os sixties e os seventies
por um ataque unificado contra Hegel, é
sobejamento conhecido como o fato histórico da
"globalização" por neoliberalismo econômico capitalista,
lembrando que Foucault o apoiava expressamente, não havendo da parte
dessas tendências, como tampouco do tomismo sequaz de Frankfurt,
qualquer simpatia ao Welfare State.
Mas
a estruta desse
discurso
como vimos funcionou
como um aparato tal que a base do questionamento da expropriação da
propriedade e dos direitos subjetivos da população pela classe
monopolista-capitalista
estava
sobredeterminada por um questionamento anômalo das opções
existenciais envolvendo a família e a sexualidade que resulta no
contrário da base. A
expropriação é
neutralizada
para efeitos discursivos de definição do objetivo do questionamento
em termos de afirmação da dominação senhorial
como expressão do inconsciente profundo.
Ora, a estrutura do discurso depende de
um situamento contraditório da
crítica do capitalismo, que não se limita à anômala disjunção
de si à noção de senhorio. Mas
além
dessa disjunção anômala, mais basicamente ocorre a
recusa
da mudança
da definição do capitalismo como intrinsecamente dominação
cultural imperialista,
não obstante a evidência dos fenômenos históricos pós-45.
O
discurso estruturou assim um efeito de cegamento da realidade
geopolítica, pela concentração na burguesia como conceito
suficiente
para apreensão de todos os fenômenos relacionados ao capitalismo e
sua essência.
O
nosso exame do hegelianismo deve pois concentrar-se na estruturação
deste
ocidentalismo
- dicotômico do "subdesenvolvido" -
como podendo ou não ser atribuído como possibilidade sua.
Esse
enfoque preserva o interesse de Hegel aos estudos pós-modernos mais
recentes, críticos do pós-estruturalismo, que também são modos
de repensar o ativismo e a teoria política interessados na superação
real da opressão.
Meramente
colocar em
questão o
ocidentalismo hegeliano pode
surpreender. Houve sem dúvida um locus anti-ocidental na crítica
pós-estrutural a Hegel, porém como vimos ela não resultou
propriamente na redefinição do capitalismo, muito menos no
desfazimento da dicotomia. Por
outro lado, mantendo
a definição que estabelecemos como o contexto atual da terminologia
do "ocidente", a dicotomia que o constitui não estava
estabelecida na época de Hegel, quando, pelo contrário, o que havia
para pensar era a independência da América. Sem
dúvida havia o germe da teoria política constituída pela dicotomia
de estado de natureza e de sociedade, porém é o que Hegel devia
estar transformando pela reconfiguração do homo
americanus
como agente histórico.
Ora,
quanto
à revolução
da consciência legal,
como
o núcleo do hegelianismo contra o "antigo
regime"
da aristocracia
colonialista europeia,
devemos sublinhar que o termo "revolução"
é utilizável
em termos apenas da
pioneira
conquista das
garantias dos direitos civis.
A libertação dos escravos abrange em Hegel, portanto, um sentido
maior do que apenas um
fato
local,
a extinção do colonialismo escravista na América.
A existência da escravidão não foi pensada por ele,
como o que estava acontecendo na América, à
base de
algo que não fosse de interesse universal em termos humanos,
o núcleo de toda filosofia da consciência e da história.
Já
em
Marx, o escravismo colonial estava reduzido a componente da
"acumulação primitiva", o estado intermediário entre o
feudalismo e o capitalismo.
Como
"capital
comercial"
esse estado
teria
sido propedêutico do
capitalismo,
porém sem
configurar
a sua essência. Ou seja, se
também um capítulo ultrapassado da história, a superação do
escravismo ao ver de Marx não era "o" fato da história,
como
o havia sido para Hegel. Mas
só
um componente prático
e acidental da
"acumulação primitiva" do capital europeu, localizado na
peculiaridade da exploração colonial americana. Ao
mesmo tempo um fator que contribuiu para o capitalismo pleno, a
Revolução Industrial, mas não um componente intrínseco da
composição do capital.
Uma
vez que a revolução constitucional e anti-escravista é o cerne do
pensamento hegeliano, da
filosofia da consciência à filosofia da história, o envolvimento
da própria Lógica se
tornou
intrínseco ao parâmetro da inteligibilidade requerido para uma
junção
coerente
destes
dois
referenciais.
A
meu ver, será sempre insuficiente a pesquisa das fontes hegelianas
nessa transformação momentosa da lógica,
apenas no contexto da ontologia
pretérita à sua. É
como
pensador do
Estado,
e de fato o pioneiro relativamente à legalidade
constitucional-nacional
contemporânea, que
Hegel se consagrou como o filósofo da história.
Por
conseguinte, se a ontologia não é naturalmente algo estranho à
temática do "pensamento hegeliano", primeiro deveríamos
considerar que uma redução metafísica de todo pensamento antes de
Nietzsche
e/ou Heidegger
abstrai
o evolucionismo como o horizonte do Real que importa à verdadeira
cisão da modernidade relativamente à toda metafísica clássica,
mesmo a que
teria restado como ideia reguladora de sentido kantiano. Mas
em seguida, seria também necessário
questionar
o estatuto da metafísica num pensamento sulcado pela determinação
do devir,
tornado intrínseco a
si.
É como intérprete dessa auto-constituição posicionada que
Hegel
veio a pensar a história enquanto não algo acidental e contingente
a si. Mesmo
que mais um filósofo na longa trajetória da ontologia, as fontes
que
o hegelianismo herda e problematiza são aquelas relacionadas à
teoria política como questão antropológica
crucial. Já não sendo possível operar com a oposição simples de
antropologia e ontologia, como se fazia antes.
Na
modernidade, pelo fato da descoberta da heterogeneidade do aborígine
americano como o que a origina
enquanto meramente um contexto pós-feudal,
um tipo de diferença na
essência
teve que ser postulada.
Surgiu a oposição na
interioridade do
ser humano, entre estados
de natureza e de sociedade.
Aqui vemos que a América não se apresentou ao descobridor como um
objeto para uma consciência,
mas como
uma pulsão para um inconsciente - algo que só foi visto pela lente
do desejo
colonizador cristão
de reafirmar-se perante o que foi designado apenas nessa qualidade de
uma diferença insanável, um outro de si.
O
Romantismo constata porém a revolução do homem americano:
independência das ex-colônias e libertação dos escravos
coloniais. A
divisão clássica de estados já não basta, houve uma história, a
diferença passa ao interior da cultura, como da civilização. Como
salientamos, Hegel
é quem recolhe as consequências,
porém elas não formam apenas o conteúdo de um setor estranho ao
cerne
filosófico renovado pela história e autoconsciência, aquele setor
que seria, à parte, uma curiosidade antropológica.
O
Estado de direitos emergindo na teoria e na efetividade, como
o fato que reposiciona a universalidade do humano, é
intrinsecamente relacionado em seu conceito produzido, ao modo como
foram pensadas as mesmas consequências.
O
conceito pós-kantiano do hegelianismo consiste
na "realização" que o
trabalho
visando
fins necessariamente
atingirá, ao inverso de ser apenas postulada
pela vontade num dado momento. Ou seja, Hegel
não está apenas fascinado com uma ideia de progresso em geral,
ao contrário do que disse Hondt,
mas lidando com um problema específico e historicamente concreto,
como pode ter parecido na sua época. A independência americana e a
revolução francesa seriam os dois lados da mesma moeda, selando um
destino humano intrinsecamente racional como realização da
liberdade ou Estado de direitos constituídos.
A
"realização"
hegeliana
é bem mais
do
que Hondt pode referenciar no seu curto artigo
como apenas
o correlato de uma representação ideal
daquilo que veio a ser como destino,
mesmo que tenha sido mérito seu empregar o termo.
Ela é o
que estamos tratando como o conceito epistemologicamente importante,
na verdade crucial, de desenvolvimento.
O
que aconteceu na história e o que significa a história em si mesma.
De
Hegel em diante,
o desenvolvimento veio a ser a transversalidade em "ciências
humanas", podendo
ser a transversal definida como metateoria do desenvolvimento. Nesse
estatuto
porém, a metateoria perfaz um estranho percurso, posto que pode
voltar a ser colhida como uma ciência ("teoria").
O
que resta por fazer, pela simples análise dos produtos das ciências
conhecidas ao longo dos últimos duzentos anos,
é
explicitar o que já existe em termos dessa ciência. O que
resulta, destacando-se
em cada uma
das ciências humanas em sua história interna,
o correlato discursivo que assim importa à nossa análise, de modo
que se
mostrará a
interseção dos pressupostos científicos
que funcionam em cada área como o que necessariamente precisa
importar de outra como base de conceitos com
que iniciará o trabalho,
mas não sendo o próprio trabalho.
Por
exemplo, o conceito de sociedade
em
psicanálise,
utilizado da sociologia,
assim como de sociedade primitiva, vindo da antropologia;
e vice-versa, o
conceito de mentalidade primitiva em antropologia social, utilizado
da psicologia ou psicanálise.
Desde
que a criança se tornou o eixo da pesquisa do desenvolvimento
psíquico, ela foi produzida na teoria pela intercessão com o
primitivo, do mesmo modo tornado o eixo da
pesquisa do
desenvolvimento social.
Essa
interseção não
é apenas a curiosidade ou a fronteira de cada ciência, ela é
intrínseca à sua possibilidade formativa. A epistemologia bem
pesquisada não dá os desenvolvimentos psíquico e social separados,
para duas ciências totalmente distintas. Revela, sim, a base
transversal do desenvolvimento psicossocial como a estruturação da
ciência pela reserva moderno-ocidental
do progresso.
A
prova da existência da ciência do desenvolvimento é porém fácil
ser demonstrada. Todo
o parâmetro médico/jurídico
da
normalidade psíquica em Estados constituídos
conforme o regime da legalidade, é conceituado pelo que a
ciência do desenvolvimento define
na intercessão de
psicologia e ciência social. E a legalidade de um Estado constituído
é essencialmente a junção do médico e do jurídico na definição
do parâmetro da normalidade psíquica.
O
primitivo, a criança e o louco tem o mesmo estatuto de anormalidade
legal definido por defasagem ao parâmetro do desenvolvimento
psíquico. Além disso, é
o mesmo
parâmetro que
define o estatuto geopolítico oficial de um país, entre
desenvolvido e subdesenvolvido, de modo que é aquele parâmetro o
critério de toda a política mundial dos desenvolvimentos nacionais.
O
momento em que a criança se
tornou o eixo considerado da pesquisa, coincide com o nascimento da
clínica ("psicopatologia"). Momento de emergência das
raízes das escolas de psicologia e psicanálise conhecidas. É o
início do século XX. A
reformulação do marxismo se fez urgente, e se como vimos exibe a
característica interesante de não seguir a reiteração
do cientificismo positivista de Viena, mas sim o humanismo crítico
dele, é nesse nascimento do "subconsciente"
da
cultura que devemos encontrar a explicação suficiente.
Antes
desse
momento crucial, porém,
como salientamos,
desde Hegel existe
o estatuto do primitivo enquanto não "desenvolvido",
recobrindo a oposição de não-ocidental e moderno-ocidental
desse modo ambíguo,
posto que ao mesmo tempo generalizada à espécie, mas o "moderno"
não estando dos dois lados da oposição, de modo que a história
mesma não é uma só.
Repetindo,
a oposição se desdobra como essência
ou construção
da modernidade, tanto efetiva como conceituada, a
partir do núcleo originário da teoria política cisória dos
estados de natureza e sociedade.
A
modernidade não existe sem ser o correlato da auto-posição de um
Sujeito da História, o Ocidente constituído para-si nesta mesma
dicotomia
do desenvolvimento a partir de um estado fora de si.
Como
vimos, Hegel é o pioneiro pensador do progresso em termos
psicossociais.
Mas
em Hegel,
como vimos, a
oposição não está ainda
estabilizada em termos disjuntivos das
histórias.
Por
um lado, a
história cultural do Ocidente, como aquela em que, se encontrará,
seja qual for, a chave do desenvolvimento psíquico do "pré-"
ao "lógico". Por
outro lado, o estatuto a-histórico das sociedades pré-lógicas,
cuja estrutura psicossocial se limita à circularidade do mito,
e cuja efetividade em devir vai ser recoberta apenas por uma
antropologia.
Estas
vem a ser porém as sociedades colonizadas, que entram assim na
história de um modo não intrínseco à própria estrutura
como
ao próprio devir
de
um mito a outro, uma sociedade a outra, enquanto possíveis estações
de um proto-desenvolvimento cujo limite
interno
é o mundo grego-antigo, onde o saber se autonomizou.
Aqui o saber não é pois, qualquer, mas o que puder ser compactado,
mesmo que só como raiz, na estrutura científica da modernidade. E
o limite externo é pois o Ocidente colonizador.
A
estabilização da oposição
do primitivo e civilizado em termos de histórias-antropologias,
já
está
produzida em Marx. Contudo, esse
momento inaugural do marxismo antecede a descoberta do subconsciente,
como vimos. A criança ainda não é o pivô da condição primitiva,
a loucura ainda não é objeto da ciência do desenvolvimento. Ainda
se pode falar do progresso em termos de "realização".
Assim
que a psicopatologia nascer, o termo apropriado será "homologia"
do psíquico e do social, assim como das fases do desenvolvimento da
consciência infantil
e
dos
estágios do mito como do desenvolvimento das sociedades. As fases
do desenvolvimento infantil
que são o proprio "subconsciente"
como quer que sejam caracterizadas conforme a escola de que se trate
- apenas
a escola de Freud utiliza para o mesmo correlato o termo
"inconsciente", devido ao modo próprio como o caracteriza.
Já
não há pois, a doença designável loucura, mas as várias
doenças
mentais que serão definidas, cada uma, conforme fixação numa
das fases
anteriores à estabilização da mente "lógica". Nem
precisam ser como tais passíveis de um quadro delirante explicitado,
o que não ocorre nas neuroses, porém quanto mais recuada for a fase
de fixação, mais se aproxima desse quadro a doença diagnosticada,
até
as psicoses graves em que ele é definido. Esse
limite arcaico da mente individual é homólogo ao da mentalidade
animista, anterior à religião de classe sacerdotal estabelecida.
Não obstante as classificações e definições clínicas serem
peculiares a cada escola, há uma uniformidade
na caracterização das fases e correspondente homologia entre todas
elas, o que se explica porque desde a origem o comportamento da
criança é qualificado pelo observador científico conforme sua
informação do comportamento primitivo. A observação deste pelo
antropólogo não costuam ser na origem orientado pelo conhecimento
da psicologia
infantil,
mas se torna ao cabo de
ter-se completado a coleção de fatos observados suficientes para
uma caracterização da "mentalidade" em estudo.
Parece
ser possível confirmar o sentido construtivo da homologia. Por
exemplo,
Wallon
equipara a linguagem pré-lógica da criança à mímica que julga
ser pertinente à caracterização do que estrutura os rituais de
máscaras africanas.
Ele não vê os fenômenos infantis como mímica antes da homologia
com o ritual de máscaras. Ele os vê, pois, desde
o início assim,
desde que se tornam visualisáveis como mímica
devido à racionalização da informação antropológica.
Levi-Bruhl,
após
completar a caracterização da mentalidade ritualística tribal,
recorrerá à terminologia psicológica para defini-la como
"pré-lógica".
Ele não começa por afirmar que ela o é.
Em todo caso, nem sempre é possível definir totalmente qual a
origem
em termos metodológicos,
e o importante é
a interseção que caracteriza a inteligibilidade mesma da homologia.
Se
a ontologia realmente não é extrínseca de todo à ciência
contemporânea, ao contrário da oposição
simples praticada desde o positivismo de Comte e Marx até o Círculo
de Viena e o jovem Wittgenstein, não
consideramos porém que isso se deva a que a ciência é dela o "fim"
naquele sentido heideggeriano da plenificação contudo excludente
do que assim se plenifica.
Um conceito de "fim" que deveríamos considerar mais
relacionável à conhecida Aufhebung
hegeliana
do que gostaria Heidegger que lembrássemos, ao que parece, devido ao
fato dele nunca referenciá-la quando se trata do
se próprio
enunciado do "fim" da filosofia na era da ciência.
Porém
o que realmente torna intrínseca uma
ontologia do
enunciado científico é o
estatuto epistemológico
deste.
O seu
horizonte de inteligibilidade é
o que a epistemologia deve
expressar,
não obstante
já estar
intrinsecamente explicitado na atuação mesma do
cientista,enquanto
metodologia de pesquisa conforme a um pressuposto do caráter
objetivo e, assim, contendo implicitamente uma lógica.
Se existe uma sedimentação da ciência "em se fazendo"
que antecede à estabilização desse caráter
lógico e objetivo,
constitutivo da ciência "já feita", como quer A. Molles;
ou
se isso é impossível devido à pre-ordenação do conceito por uma
mente já constituída como operatório-formal acima das fases
infantis da
inteligência, como quer J.
Piaget;
em
todo caso o produzido científico só pode ser enunciado por alguém
que atenda a um requisito epistemológico definido, expresso ou por
expressar.
A
lógica dialética de Hegel não foi ainda objeto de um estudo que
visasse as suas relações com a epistemologia científica, nesses
termos da
tarefa
desta última enquanto
explicitação
ontológica
da
ciência - logo,
não
"regional", ao modo de Husserl.
Não
se trata da significação do objeto=x
que uma ciência define como seu
(sociedade, cultura, personalidade, número, universo, etc.), mas da
objetividade em geral.
Parece óbvio que ninguém pudesse esperar que lhe viessem defini-la
na qualidade de fenomenológico husserliano. O máximo que poderíamos
esperar é que
alguém, escolhendo
atenter
à informação posterior
proveniente
dessa fonte,
procedesse
uma redefinição
da sua até aí.
Não
há porém, para essa generalidade
do objeto,
um referencial único enquanto "ciência" - a asserção
contrária contempla erroneamente nesse estatuto amplo apenas
o
bem restrito
referencial do "positivismo".
Assim
as
várias epistemologias e metodologias das ciências, e os inúmeros
cursos de pesquisa ao longo da modernidade, revelaria variações
consideráveis entre o sim e o não à dialética. Esse não é um
problema de menor importância, lembrando que os países assim
designados comunistas ditam a dialética como doutrina
oficial de Estado, geralmente compactada pela formulação de Engels,
enquanto
"marxista-leninista",
que é na realidade bastante relacionada
à hegeliana. Como
porém, de fato o cientificismo positivista em que se baseou Engels é
bem oposto ao que assim
se
designou idealismo hegeliano, a
posição onto-lógica
não
é a mesma. A dialética materialista teria um poder sobre os fatos
da
ciência natural que
ao que parece Hegel mesmo não previa.
Isso
resultou na
desastrosa política soviética de perseguição à pesquisa
genética, sancionando a versão incorreta para condenar
judicialmente
a correta. O modo como na Russia se corrigiu posteriormente esse erro
não elide a perpetuação da imposição da doutrina oficial para
efeitos de censura no mundo comunista, como ao que eu soube ainda é
o caso da dialética na China. Aqui
temos um exemplo do que significa uma mudança de paradigma,
como do positivismo relativamente ao romanticismo. Não
é apenas o significado conceitual, mas a
auto-posição do Sujeito do Saber, enquanto da história
(modernidade). Enquanto o romantismo introduziu as ciências humanas
com metodologia autônoma, o positivismo as elidiu neste estatuto,
conforme um ideal de ciência unificada pela
metodologia das ciências naturais. Mas, muito mais do que isso, a
autonomia das ciências humanas do romanticismo implicava
a autonomia da história como fato das culturas, enquanto
a redulção naturalista do positivismo implicava a autoridade
absoluta da
ciência objetiva como único agente da mudança histórica doravante
autorizado. Comte e Marx pregaram
a ditadura do sábio como
horizonte da legitimação do progresso. Se não se entende bem por
que Marx pensava ao mesmo tempo em termos de conquista democrática e
ditadura
subsequente, creio que o positivismo como paradigma de época é a
explicação. Os
movimentos de renovação do marxismo pós-positivista nunca
penetraram na
União Soviética senão como dissidência, e se o maoísmo é um
caso à parte, a atualidade chinesa também deve ser considerada por
estudos especializados.
Mesmo
na exterioridade de amostra tão extrema
como o exemplo comunista a propósito das
relaçãos entre dialética hegeliana e ciência contemporânea,
a implicação do devir na caracterização do objeto é um problema
que a epistemologia deveria se colocar em sua interrogação da
características importantes da pesquisa científica e da mentalidade
que lhe é correlata.
Ou devemos expressar, das mentalidades, já que as metodologias de
pesquisa e conceitos de ciência são enormemente variáveis.
Não
pretendo aqui
o
ônus dessa
tarefa do discernimento dialético da ciência contemporânea,
para estabelecer quando e onde ela foi recusada ou aplicada, e em
quais casos podemos afirmar uma influência medianeira entre não
e sim.
Mas
pretendo
ressaltar
como fato básico um senso-comum assumido na,
e como a, modernidade, de
que por objeto devemos entender o correlato concebido por um sujeito.
Este,
sim, é o que se perpetua na mentalidade contemporânea vindo de
Hegel.
Ora,
se os paradigmas variáveis desde o Romanticismo até agora, vão
problematizar em geral essa relação de sujeito e objeto, o
importante é que sempre a atribuição do desenvolvimento lógico da
inteligência é ao mesmo tempo uma egologia.
E se este é o resultado da modernidade em termos de progresso ou
homologia do desenvolvimento,
é nítido que a margem ("primitivo") como objeto
pulsional, teve desde
a origem
do
seu conceito este
desejo egológico, de auto-posição frente ao objeto de si
diferenciado como outro. O objeto pulsional não é pois, a coisa,
mas o outro.
Nesta
ambiguidade propriamente pulsional pela qual ele não é
possivelmente posto nesse caráter enquanto o que não tem vínculo
com o sujeito que assim o dispõe. Sendo outro, nestas condições da
relação pulsional, ele é ao mesmo tempo algo do mesmo, disposto
como o que é apenas pelo sujeito mesmo, e não por "ele
mesmo".
Com
efeito, desde Hegel a reordenação da "teoria política"
envolveu o equacionamento da modernidade como assunção do ego em
termos de resultado do processo histórico
da consciência. A "teoria política" antecedeu as ciências
humanas, e nela,
de Locke a Rousseau desenvolveram-se
os pródomos do liberalismo em torno da dicotomia de natureza e
sociedade, colocando-se
teoricamente
pelo referencial da natureza como antropologia
por fazer do índio americano - não já a tradicinal
ou
a religiosamente,
portanto.
Mas
o enunciado do Sujeito como "da história" enquanto o
estado histórico da consciência objetiva, foi apenas correlato da
emergência das ciências humanas, e nunca feneceu neste estatuto
imanente ao
produzido por elas,
como
critério da mentalidade moderno-ocidental ou "desenvolvida".
O
pré-lógico é o pré-ego-lógico, e
se existe um Sujeito da História do desenvolvimento, é
por
ser ele Sujeito da História da subjetividade.
O critério do pulsional, como pré-lógico, é portanto ao mesmo
tempo aplicável ao processo do Ocidente que
aqui proponho designar geo-ego-lógico,
e oriundo do processo mesmo enquanto este
- que deve ceder a
oposição do objetivo lógico, não pulsional.
É
imprescindível
mencionar
nesse ponto, que
Hegel estava lidando com uma transformação jurídica real,
correspondendo ao estatuto da nação constituída. Nessa
transformação do regime constituído,
as leis aboliram a diferença de
conteúdo conforme diferença de estamentos (nobreza, clero e
plebeus). Todos os cidadãos da nação respondem à mesma lei
constitucional, assim eles respondem por
seus deveres como
indivíduos, e sujeitos de direitos individuais. Essa
é a transformação capital na produção teórica do hegelianismo,
em termos de modernidade e vir a ser processual de ciência e
autoconsciência.
Por
outro lado, o "desenvolvimento" como política nacional na
"margem"- o conjunto dos países sub-desenvolvidos - se
tornou o vínculo do imperialismo.
A
Revolução Industrial se viabilizou na Europa,
ao longo do século XIX, por uma
escala de negócios proporcionada pela alocação contínua de
mercados cativos, nisso em que foram se transformando as economias
das nações recém-descolonizadas,
mas,
também,
o potencial de trabalho e matérias primas oriundo de regiões que
começaram aí a ser colonizadas, em Ásia e África.
A
esse processo de açambarcamento econômico e/ou territorial, porém
posterior ao período colonial-escravista propriamente dito,
se designa "imperialismo". E de fato as potências
europeias de anexação de economias estrangeiras logo
desmentiram o vínculo de modernidade e liberalismo, passando ao
estatuto de impérios neocoloniais. Porém
nunca o fizeram sem o
componente discursivo
do "desenvolvimento" como o pre-texto da penetração
capitalística local.
A
entrada na história dos povos primitivos, neocoloniais
ou pós-coloniais, os
tornava "sub-desenvolvidos" conforme a "alter-ego-logia"
do seu vir a ser futuro como cópia da trajetória do
"desenvolvimento",
ao mesmo tempo universal e unicamente ocidental. Os
programas de governo local se ordenaram conforme a orientação
imperialista, porém vazada
na instituição internacional do "desenvolvimento" como
horizonte científico-industrial.
O
imperialismo não era apenas a contra-revolução industrial na
margem, para efeitos da "dit" - divisão internacional do
trabalho - que prescreve o sub-desenvolvimento como exportação de
matérias primas, e o desenvolvimento como exportação de
industrializados.
Assim conforme acordos bastante ambivalentes
pelos quais a exportação de industrializados envolve o
desenvolvimento progressivo local,
não obstante significarem a
proibição prática da indústria local
na forma do compromisso
com
a
restrição
dos programas governamentais a qualquer apoio a essa indústria.
Paralelamente
as instituições de ensino e pesquisa,
na "margem" anexada pelo capital,
são monopolizadas como veículos das
teorias geo-ego-lógicas que impõe o estatuto subdesenvolvido à
iniciativa da inteligência local.
Empregando-se e formando-se o
intelectual não atuante
do
papel de prova
desse discurso do primitivo, mas, ao contrário, de alter-ego do
"centro", aquele que inicia a história local
a
partir da aplicação do paradigma prescrito pela ciência do
desenvolvimento. Além
dos tratados bilaterais de importação-exportação, que
compromentem nações de margem e potências centrais, a "dit"
é regulada por instituições internacionais como FMI, ONU, etc.
Quanto
ao estatuto imperial do neocolonialismo, por onde o domínio
econômico internacional veio a se designar
vulgarmente "imperialismo",
na
verdade a Revolução Francesa, como
o contrário do regime imperial
na Europa,
foi um fato isolado.
Não
correspondeu
a
todas as nações europeias,
não obstante o dogma da
ideologia "geo-ego-lógica" do Ocidente
como Sujeito da História da subjetividade.
Napoleão estendeu a influência institucional revolucionária às
regiões que dominou, porém ele mesmo foi ditador e o domínio foi
efêmero.
A
transformação jurídica
constitucional
em variados graus conforme
a nação europeia, mas
que em todo caso devia conceder a subjetividade referencial
de direitos e deveres, não
dependeu, em muitos lugares, da mudança
revolucionária,
como na Alemanha, ou ela não precisou abolir inteiramente a
aristocracia, como na Inglaterra. Relacionou-se
com a importância econômica de uma burguesia grandemente amparada
na exploração colonial,
e, depois, imperialista.
Desde
Marx,
e
conforme
o
positivismo,
o
capitalismo como produção industrial se tornou o referencial
explicativo do fator de geração da modernidade
em termos do
que aqui designei
geo-ego-logia.
É um dogma positivista que a inteligência é produto da técnica
como fator adaptativo,
assim
como o homem é produto do meio, e
em Marx a
técnica
envolve
o conjunto da produção econômica. O
pós-positivismo não abandonou essa premissa, que desde Marx já se
configurava pela terminologia da "divisão do trabalho",
mas para designar a formação de funções especializadas na
produção - a "dit", incorporando funções nacionais ao
conceito, só foi definida mais
ou menos recentemente.
Já
Durkheim elevou a divisão do trabalho a fator sociológico do
desenvolvimento
ocidental,
assim como delinara Marx. Um
carater social primitivo é, pois, em
ambos e generalizadamente, a
confusão de papeis de trabalho, familiar, etc.
Esse
critério da divisão do trabalho vemos resultar de
uma transformação capital no discurso geoegológico do primitivo.
Até aqui, desde a "teoria política" de Locke e Rousseau
até Hegel, o primitivo era pensado como um sujeito atuando
isoladamente na natureza, ou, se já
agrupado numa coletividade, limitada esta a funções utilitárias,
gerando progressivamente as demais funções - ou disfunções,
conforme Rousseau - propriamente intersubjetivas. Parece
ter sido Darwin quem mudou a concepção, de modo que na origem
estariam hordas semi-animais,
de que os povos primitivos seriam especializações de complexidade
contínua. Tornando-se então o problema científico definir os
determinantes do progresso das coletividades, a
divisão do trabalho constou como solução possível.
Esse critério sobrepõe um elemento sociológico ao biologismo
básico da técnica adaptativa.
Porém
desde
o positivismo conservou-se
a premissa geo-ego-lógica
do
liberalismo como a essência da modernidade,
conforme pudera afirmar Hegel
antes do imperialismo desacreditar o percurso puramente ideal da
consciência contando com a prova da emancipação revolucionária e
pós-colonial. Quando
o liberalismo se tornou conceituado
por Marx como
aparato "ideológico" do capitalismo, a aparência
distorcida de relações legais sobre o que seriam na verdade
relações de classe, essa crítica nunca atingiu a premissa
básica do verniz liberal como a coalescência do ego desenvolvido.
E
o liberalismo seria o regime de direitos formalmente constituídos
nunca antes praticado por qualquer sociedade - pois mesmo o direito
romano não
caracteriza a igualdade jurídica nem desdobra a concepção da
subjetividade, bem inversamente, coalesce numa mentalidade de
subsunção total do indivíduo à tradição.
A
segregação mesma das noções de Estado legal
e
tradição implica uma característica da modernidade.
A
tradição é pois uma função mítica, não histórico-racional.
Vemos
que o espaço
em que se produz a filosofia hegeliana é uma faixa estreita
do processo da modernidade,
pós-colonial mas pré-imperialista. A
análise geo-ego-lógica do discurso de emancipação hegeliano
não
pretende esgotar o sentido filosófico dos conceitos
de Hegel, mas conserva um sentido autônomo de leitura.
Como se pode ter observado, cada um dos três períodos que acima
delineamos configura não só um paradigma metateórico
construído em função da oposição do Sujeito do Outro da
história,
mas uma
prática de anexação da Outro conjugada, mais ou menos
contraditoriamente, ao discurso do primitivo. Na época de Hegel, o
desenvolvimento econômico mesmo promovia o processo de independência
colonial, conforme o ideário de lucros do
liberalismo internacional
smithiano.
O positivismo tem sido amiúde atribuído
como o discurso de pseudo-legitimação da ofensiva imperialista de
molde racista definido por um biologismo hoje já não possível, mas
na época plenamente corerente com premissas evolucionistas
pré-mendelianas.
O
pós-positivismo foi a era neocolonialista
e
da reconfiguração corporativa do capital. Nele, o escalonamento do
progresso das sociedades numa linearidade totalizante
que previa tipos de família, sexualidade, religião, temperamento,
conforme o
grau
de conhecimento técnico das etnias - eis o conceito totalizante de
"raça" - foi refutado,
ou ao meno desacreditado,
pela emergência da pesquisa
de campo.
A
previsão não se confirmou, mas sim o que inicialmente pareceram
totalidades sociais originais, que não ostentavam
entre si
progresso contínuo ou constante do
determinismo técnico. A cultura tornou-se pois superior à "raça"
para efeitos de conhecimento etnológico,
no
entanto sem
que
a cisão em geral
de
sociedades
infantil-primitiva
e adulta-desenvolvida
se abolisse.
Não
havia tampouco a suspeita de que as totalidades sociais pudessem
conter heterogeneidade interna,
ou serem miscíveis entre si, além de apenas assimilação por
difusão,
reproduzindo-se esquemas.
Esse
aspecto é grandemente contrastável ao culturalismo romântico, em
que a miscigenação havia sido o critério importante.
Assim
vemos que entre o positivismo e o culturalismo "funcionalista",
a noção de desenvolvimento para efeitos de programas nacionais na
margem correspondeu a políticas raciais ou culturais de
"branqueamento" e substituição de contingentes
populacionais. Não se previa que o referencial pré-ego-lógico
pudesse,
enquanto contingente racial, desenvolver-se psiquicamente conforme o
requerido aos padrões de produção capitalista.
Na
Europa as oposições ao capitalismo foram sermpre
coordenadas
às teorias,
eis o que mais importava à alter-egologia na margem.
O positivismo prezava muito a substituição
étnica, o "branqueamento",
o funcionalismo anarquista
a deplorava mas não conhecia alternativa.
E
se o positivismo correspondeu a um marxismo desenvolvimentista
tecnicista - a "segunda internacional" e a política
stalinista -
foi do funcionalismo que emergiu a retroação anarquista
ao
primitivo
como
estereótipo da
"tradição"
contra o Estado já
conceitualmente
reduzido a efeito do capital.
Mas
o primitivo feito
modelo,
jamais "legalizável",
não era o efetivo da margem, e sim o
inconsciente europeu e o que o conhecimento europeu sobre a margem
poderia catalizar em termos de autoconhecimento. Esse "primitivo"
da vanguarda estética e do "humanismo" político,
tornou-se o
horizonte ideal do inconsciente de que se deveria na Europa fazer o
novo percurso do desenvolvimento são,
o super-homem nietzschiano,
o futurismo da máquina fascista, etc. Assim,
do mesmo modo que para toda geo-ego-logia, fazer
da
modernidade ocidental
a
evolução da espécie.
Nessa concepção do
progresso-regressivo do ambivalene humanismo funcionalista, vemos
algo da Aufhebung hegeliana, e com efeito, um Hegel depurado de sua
inversão positivista era acalentada influência entre as vanguardas
estéticas e a teoria social. Mas Hegel era então amiúde aplicado
ao contexto de modo a possibilitar conceitos novos.
Oswald de Andrade o
exemplifica, propriamente quanto à concepção do progresso. Entre
nós Oswald é exemplo do imperativo alter-egológico de
discriminação da originalidade local, tão marginalizado apenas por
afirmar uma filosofia da história e uma teoria do inconsciente
próprias, mesmo em interlocução com a teoria internacional, sem
ultrapassar os limites do funcionalismo. Oswald interpretava a tríade
lógica hegeliana numa nova filosofia da história - ou seja, ciência
do desenvolvimento - tal que o primitivo seria a tese como o ócio do
homem natural (comunismo, sexualidade livre); o civilizado seria a
antítse como o negócio (capitalismo, patriarcado) do homem
tecnizado; mas o desenvolvimento internacional de vanguarda seria a
síntese, o homem natural tecnizado, conforme um novo capitalismo dos
gerentes e da liberdade sexual, pós-weberiano à Bunyam.
Entre os
norte-americanos houve também várias aplicações de Hegel com o
mesmo objetivo de integrar o progresso na América à capitalização
da síntese. O fato é que durante as duas guerras mundiais, a
contra-revolução industrial imperialista na margem havia cessado,
por estarem os países centrais envolvidos no conflito. Houve uma
industrialização insipiente na margem, e como os USA despontaram
como os novos protagonistas do capitalismo central, mesmo durante a
guerra puderam iniciar sua política de exportação de capitais. A
retórica subjacene era de incentivo ao desenvolvimento, que assim,
com o pós-guerra, emergiu conforme a um novo parâmetro. Nessa
época o estruturalismo estava também despontando, e em sua oposição
ao paradigma funcional restaurou o progressismo linear, contudo em
novas bases, a teoria do inconsciente. A "raça" tornou-se
obsoleta, o componente étnico sendo menos importante ainda que na
época de predomínio funcionalista, mas o escalonamento por fases de
mentalidades sociais a partir de sistemas de parentesco tornou-se o
referencial.
(...)
=
o mapa das tríades
Em
Bréhier,
as tríades hegelianas são introduzidas como "divisões da
filosofia", isto é, do campo de conhecimentos possíveis. Assim
se expressa o historiador sobre Hegel: "Um enciclopedista, mas
ao mesmo tempo um sistemático;
o enciclopedista não quer deixar perder-se nenhuma realidade
positiva; o sitemático só quer reter um produto de especulação
racional; a ambição de Hegel foi, desde o início, unir tão
intimamente enciclopédia e sistema que a realidade positiva ficasse
de saída dada como uma massa exterior a esse pensamento que a
absorveria pouco a pouco, a filosofia não
tendo mais que uma função formal de organização;
é preciso que a realidade seja posta em, e por, o sistema ...".
Porém,
se não seria muito fácil admitir um Hegel positivista, para quem a
filosofia nada tem a fazer assim que se estabelece a ciêncian
positiva,
o
próprio Bréhier aduz que restou
explicar
essa
união do conceito ao ser e do ser ao conceito.
Não havendo possibilidade de atender a essa
exigência se o procedimento começa por estabelecer a ambos como
toalmente exteriores um ao outro.
E eis o que ao ver de Hegel, conforme Bréhier, faz a ciência
empírica onde "o pensamento é vazio e sem objeto",
pois, "o problema filosófico, a determinação
racional de todo ser e de toda realidade é insolúvel, se ele
não é, em certo sentido, resolvido desde o começo...".
Ou seja, se desde o início não estamos na posse dessa intuição
transcendental ou intelectual que Hegel designa o conceito
(Begriff). (Histoire
de la philosophie, arquivo internet, p. 429)
Mas
em que consiste ela? O modo como Bréhier desenvolve desde aí o
contraste da posição de Hegel com as demais importantes a
propósito, enseja nossa lembrança de que o
aporte da questão resolve-se na intuição intelectual
enquanto intuição da unidade do Eu como substrato idêntico a todo
objeto posto pelo entendimento ou na experiência. Esse
aporte é pois a porta de entrada na
interioridade do pós-kantismo, o limiar de ruptura a partir do qual
o pensamento kantiano não pode prosseguir, por ter expressamente
interditado essa via de questionamento, a partir da suficiência das
faculdades particulares ao todo da razão. Franquear
o limite já é unir o que Kant pensava só poder assim restar unido
em
Deus, a unidade total de sujeito e objeto.
Um
recuo aquém de Kant ao panteísmo ou a Spinoza não é o caso,
porém, do pós-kantismo.
Posto
que o
substrato da ruptura quanto à intuição intelectual como interdito
kantiano, é o que nada até aí na história havia
questionado, a saber, a subjetividade enquanto locus e agência do
pensamento.
À
solução da
identidade de sujeito e objeto por
postulado, de Fichte, ou
pela fé, de Jacobi, são rejeitadas por Hegel. Rejeita
Fichte
por ser abstrato, não
obstante ter sido Fichte quem iniciou
o pós-kantismo por sua crítica, não obstante amistosa, à posição
de Kant relativamente à intuição intelectual, que desde
aí se tornou a questão do Eu. A
posição do velho Kant,
um homem bem do século XVIII, frente
a essa crítica subjetivista
foi
de radicalização do seu preceito anti-intuitivo. Já a
rejeição de Jacobi
ocorre
por
Hegel ter considerado que a
crença é externa à razão.
Hegel
nesse início do
pós-kantismo se
faz shellingniano, por ter Schelling conservado a intuição
intelectual do eu
como
o que ela é em si, intuição. Nela,
pois, o objeto da natureza não está oposto a si, mas é seu objeto,
assim a natureza é um sujeito objeto e também o Eu. Porém Hegel
mais tarde
rompe também com Schelling. É quando opõe o Begriff à
intuição
(Anschauung)
assimilada agora ao simples sentimento (Gefühl) que confunde as
ideias e tende à edificação antes que à especulação.
Ao
absoluto abstrato de Schelling, a oposição do conceito hegeliano
não é para
Bréhier contudo
suficiente
diferença. Crê tratar-se mais de nuance, entre Schelling, Fichte e
Hegel, acentuada pelo calor da polêmica que moveram
entre si, do que um contraste real. Todos os três filósofos
estariam animados por uma mesma influência, a mística
pré-romântica, eivada de "imagens teogônicas"
em que se desenha "um Deus que nasce e se realiza lutando e
sofrendo; um período militante que precede o triunfo".
(p.
431)
Algo
na senda do que Kant havia motejado com a designação de
Schwarmerey, delírio,
illuminação,
fanatismo ou entusiasmo em Alemão, aplicando-a numa crítica ao
mistico Swendenborg
por sua veleidade de intuição de objetos fantásticos, além da
experiência objetiva científica.
Como
pensador do século XVIII, Kant não antecipou a reação na trasição
ao XIX, que foi de adesão em peso ao misticismo
pré-romântico.
Essa
trajetória
surpreendente
envolve uma reconsideração necessária do fermento revolucionário.
Ao
invés da
fable
convenue
do Aufklaerung, de fato o
misticismo
de iluminados é preponderante
na adesão de povo e liderenças num mesmo fervoroso ideal que
resultou na ação.
Bréhier
na "Histoire de la philosophie"
é eloquente a propósito, tanto
em
seu estudo sobre Schelling
como em trecho intitulado "du sentiment et le préromantisme".
Essa
mística sentimentalista
de iluminados pelo
espírito de Deus, que
porém
permitiam a emergência de um conceito histórico-filosófico
de
cristianismo transcendental, envolvia
noções
de continuidade dos seres naturais num todo originário e espiritual.
Não
precisava pois ater-se a práticas ocultas ou prédicas
apocalíticas. É
sui generis por sua localização na emergência do Evolucionismo,
como pioneiras vias de assimilação da ideia transformista em termos
de relação entre espécies até aí consideradas estanques,
como foram noçõe como série e cadeia entre os seres.
Assim
essa mística da
iluminação espiritual
contudo radicalmente anti-aufklaerung, foi
de fato influente na filosofia e nas ciências da época, que
descobria a evolução e fenômenos da ação de forças físicas
como a eletricidade,
além de antecipar conceitos comunistas em política
como na retórica de
Boneville.
Para
quem o ateu cientificista é uma espécie intermediária entre homem
e símio, um tipo de orangotango.
Não
significa que as ideias prosaicas do Aufklaerung cientificista do
século não tenham tido qualquer papel, mas sim que não foram
o substrato do espírito da revolução popular, e a mística tivera,
inversamente, como algo nuclear o desfazimento das fronteiras da
consciência comum e da cognição do verdadeiro.
O cientificismo e o aristocratismo puderam ser vistos como análogos
por causa dessa questão de fronteira interna à consciência,
e só quando esse obstáculo foi removido pelo misticismo populista,
a ação revolucionária se viabilizou nas ruas. Não é a toa que o
ídolo da Revolução tenha sido Rousseau bem inversamente a
Vontaire.
E
na supressão da fronteira de ciência real e consciência comum, eis
por onde a intuição se revestia de um papel capital, por seu
parentesco a "revelação" religiosa,
reservada ao povo crente como aos simples de espírito,
coomprovada todos os dias na
multidão
de
milagres e conversões das igreja,
templos esotéricos
e maçonaria, todos inflamados pela mesma renovação mística,
intensa e expressamente
anti-aufklaerung,
indentivando-se práticas de exclusão.
Mesmo
que, como em Saint Martin, houvesse uma justificativa da
radicalização da violência revolucionária como "expiação
tornada necessária pelo pecado primitivo", de modo que também
criticava as bases falsas do factualismo aufklaerung que pudessem ter
aderido à sua constituição, seria
compreensível que esse fervor não pudesse evitar que o martinismo
contivesse as ideias reacionárias, contrárias à revolução, que
desenvolveram os tradicionalistas como Josreph de Maistre e Bonald.
Mesmer,
Baader, Lavater e outros referenciais importantes do misticismo,
foram contudo
influências explíticas na primeira formulação do conceito de
inconsciente, como de Heinrich Schubert e Carus, tendo por
intermediário a valorização de fenômenos de delírio,
sonambulismo e hipnose, tanto pela estética como pela pesquisa
médica. A
conexão com o romantismo estético é patente,
expresso na ligação de Schelling e os irmãos Schlegel, estes
últimos os artíficies da estética romanticista,
e um referencial importante
na união de pré-romantismo e estética romântica é
a poesia de André Chénier,
assim como de Novalis.
Entre
misticismo, teoria política,
arte,
filosofia e ciências, a
onda de Schwarmerey produziu-se como um
amálgama com graus variáveis de independência disciplinar.
Assim por exemplo, Schelling foi desde sempre influenciado pelo
misticismo pré-romântico
de Swendenborg e especialmente Saint-Martin,
mas só tardiamente se concentrou totalmente nessa linha.
Não
obstante ter sido a sua filosofia
rigorosa,
via
intermediária de compromisso bastante influente entre cientistas da
época,
como Ringseis,então
diretor-geral da saúde na Baviera, o físico
Ritter e o
biólogo Lorenz
Oken.
"Naturphilosophie"
é a designação dessa tendência totalizante espiritualista na
ciência, localizada historicamente na era romanticista. É também
uma divisão interna às filosofias pós-kantianas.
Ao
considerar a filosofia historicista de Hegel como apenas mais uma
variedade dessa
mesma tendência da base Schwarmerey,
Bréhier não acentua suficientemente que a
Fenomenologia
do
espírito de Hegel,
publicada em 1807,
é
o limite histórico do
movimento
místico.
Mesmo que Schelling tenha se
aprofundado
ainda
mais nessa
via depois, a
publicação da Fenomenologia rompeu
a unidade
da
intelectualidade em torno dela, que havia sido característica do fim
de século
assim como dela mesma
enquanto momento histórico.
O
prefácio
da Fenomenologia do Espírito expressa
a rejeição de Hegel de toda via mística na filosofia. Ele
não pode pois ser considerado apenas uma nuance na nuvem mística
que envolveu a Europa na transição ao século XIX. Além
disso, devemos notar que a "naturphilosophie"
em Hegel não é tão importante como o conceito de
Geistewissenschaft,
este que
realmente é a tarefa nova da filosofia pós-kantiana, a saber,
o conceito de
"ciências
humanas".
Elas
estão emergindo nesse
momento como
pesquisa autônoma em estética, sociologia,
psicologia
e antropologia, no
bojo da cientificização recente da História.
Núcleos
de pesquisa se autonomizaram aí,
como medievalismo e folclorismo, psicologia do eu e hermenêutica,
economia política, entre vários outros,
alguns
antes de se formalizarem ciências correlatas, porém todos
já
com a consciência de serem pesquisas com método e objeto
independentes da filosofia,
basicamente por serem horizontes históricos, não fatos
generalizáveis.
O interesse do hegelianismo voltou-se à
elucidação filosófia
de
como
a historicidade deveria
porém ser interpretada em sua relação com a consciência em
que ela se resolve como dotação de sentido.
O
modo como Bréhier explicita o
conceito em Hegel,
pode ser endereçado do seguinte modo. O conceito
é essa intuição de mim, que só tenho na conta da reflexão sobre
minhas experiências. Aquilo
sobre que reflito
é
a exteriorização
do
meu ser
nas vivências que tenho,
e consequentemente
retorno à minha interioridade nesse
conceito que produzi como conhecimento
da experiência que tive.
A
princípio, o conhecimento conceitual é sem mediação
ulterior à própria reflexão na experiência.
Porém, uma vez que realiza-se por essa
exterioridade, deveríamos
aqui reconhecer o trabalho da
cultura
como a mediação em
que a história acontece,
aí onde as experiências das consciências se encontram e tem lugar.
E esse seria o traço realmente oponível de Hegel aos outros
pensadores pós-kantianos mencionados.
Bréhier,
que é menos simpático a Hegel do que a
pouquíssimos outros filósofos
de que trata, sendo
inversamente bastante favorável a Descartes e a Kant, não
visa esse papel da mediação. Ele
introduz as divisões
hegelianas
da filosofia, como aquilo em
que Hegel estaria expressando o movimento mesmo da mediação
reflexiva. É
por isso que Bréhier opera aqui uma circularidade. Primeiro a
fenomenologia do espírito, nas
quais a consciência se eleva "das formas elementares da
sensação à ciência"; em seguida a lógica, "onde o
conceito se define em si"; Filosofia da natureza, onde o
espírito se faz estranho a si próprio; e novamente Fenomenologia do
Espírito, "que
mostra o retorno do espírito a ele mesmo no direito, na moral,
religião e filosofia. O sistema é uma vasta epopéia do
espírito...".
Não
deixa de citar Hegel, que assim explica sua filosofia colocando bem
mais adequadamente a filosofia da história ali onde Bréhier faz a
impressão da repetição da fenomenologia do espírito: "uma
experiência [da consciência];
em seu esforço para se conhecer, o espírito produz, sucessivamente
todas as formas
do real, primeiro os quadros do seu pensamento, depois a natureza,
depois a história".
Como
vemos, Hegel mesmo coloca apenas a sucessão de lógica, natureza e
história. A fenomenologia do espírito
parece assim novamente de um modo algo deslocado. Se Bréhier faz
dela o cerne circular
do
sistema, Hegel mesmo não a referencia nos quadros da produção das
formas do real pelo espírito, como a inteligibilidade em si e para
si. Inversamente
ele coloca como o referencial da inteligibilidade pura a Lógica. Ali
onde se trata da forma real do pensamente, associamos pois,
mais
oportunamente
a lógica. Mas
pelo fato mesmo do conceito ser a experiência da extrusão
(Entausserung) da consciência, Hegel cria a fenomenologia. Ainda
assim, é do mesmo pensamento conceitual aquilo de que se trata.
De
fato esse é um problema, a meu ver, da fenomenologia
hegeliana.
A lógica, enquanto explicitação do inteligível, sem porém
tradicionalmente colocar qualquer questão da consciência subjetiva,
é o locus tradicional da forma do pensamento. Mas assim a filosofia
não teria qualquer novidade de explicitação da autoconsciência, o
que Hegel introduziu como fenomenologia.
Ela,
porém, como Hegel a constroi
ao contrário de Husserl,
não
é auto-reflexão,
não é
resultado
de
introspecção
ativa,
não
obstante Royce, segundo Bréhier, a ter designado "a
autobiografia do espírito".
Mas
assim como Bréhier, para inserir
Royce
a Hegel
numa tipicidade de época,
comparando-o ao romance de construção de Goethe. Quando
Hegel
é na verdade a figura encarnada da transição ao realismo
pós-romântico enquanto influência expressa dos artífices
da ruptura.
Movimento
com algo de trágico, que resultou na incompatibilização
do
regime
prussiano
com a
escola dos seguidores de Hegel. Não obstante estes "jungehegelianer"
estarem geralmente problematizando as teses de Hegel como pretexto
para deduções totalmente
avessas ao que se considerou geralmente o seu idealismo. Mas
esse era justamente o problema. Em todo caso,
como observou Carpeaux, "agora, o hegelianismo já não podia
ser considerado como filosofia oficial da Prússia; os 'jovens
hegelianos' estavam suspeitos de participar da literatura dos 'Junges
Deutschland'
e da agitação política, cada vez mais viva na Alemanha inteira".
(história da literatura ocidental, Rio de Janeiro, Alhambra, 1966,
p. 1376, v. V.)
O
recurso do regime,
que não podia ver com bons olhos Eduard Gans, o catedrático de
filosofia
integrante
dos "jovens hegelianos",
que os alunos haviam preferido para a sucessão da
cátedra na
universidade.
A
morte de Hegel
por
cólera,
ocorreu
logo
depois de ter
sido feito reitor,
em 1831 (nascido em 1770).
Os
motivos do regime contra Gans estando assim claros, o recurso do
regime
foi
chamar Schelling para ocupar
a cátedra,
em 1841. Conforme Carpeaux, "a luta entre Schelling e os 'jovens
hegelianos' berlinenses, um dos episódios mais dramáticos e mais
decisicos da história espiritual da Alemanha,
terminou com a derrota completa do velho místico" que Shelling
havia se tornado por fim.
Ninguém
assistiu ao curso de Schelling, que terminou
por abandonar a universidade.
Ele se limitou desde aí a
organizar os próprios escritos e aperfeiçoar
o seu sistema, morrendo
na altura de 1854 (nascido em 1775).
Tal
foi o melancólico crepúsculo do
romantismo, enquanto na superfície dos fatos ele porfiava,
na apropriação para fins do regime autoritário, como doutrina
oficial da universidade.
Paralelamente
votando
o regime à
perseguição política e
pena de prisão aos
protagonistas do realismo na Alemanha,
assim como
aos
defensores da democracia,
inclusive Marx.
A
estética de Wagner é a epítome tardia desse romantismo de Estado.
Vale
determo-nos a propósito
da
transição do romantismo ao realismo.
O
movimento dos "jovens hegelianos" era então integrado
por
alguns
membros que residiam como exilados na França, e
foi desse movimento que resultou a influência do socialismo francês
na Alemanha. A
revista "Deutsch-Franzoesische
Jarbuecher",
fundada em 1842, tornou-se
o referencial das relações franco-alemãs.
Marx
registrou
em escritos
autobiográficos
que
seu interesse em política e economia originou-se por ter se
empregado em um jornal
nessa época,
onde ficou patente a necessidade de informação competente nessa
área, e então ele relata ter se
iniciado na leitura dos socialistas franceses. O
encontro com Engels, que já tivera a inspiração da luta de
classes, foi decisiva para canalizar as intuições políticas que
ele havia haurido desse
conhecimento das ideias francesas.
David
Strauss consta entre o
grupo dos
"jovens
hegelianos",
que assim como Christian Baur,
iniciou a leitura histórica do mito cristão, criando a teologia
crítica do protestantismo alemão moderno. Conforme Carpeaux,
substituindo os
conteúdos da doutrina oficial da igreja pela história, essa
vertente foi logo
depois
utilizada para fins anti-religiosos,
mas
esa
utilização,
ocorrendo na vigência da revista, representou
a cisão do grupo.
David
Strauss
aplicara à crítica dos Evangelhos os princípios da dialética de
Hegel, mas transformada pelos jovens hegelianos em processo infinito,
de modo que num livro que
se tornou muito célebre interpretou
ele
a vida de Jesus em "mito que fez história". Que
não tinha intenções totalmente anti-religiosas, se vê por isso
que Nietzsche o abominava,
assim como a Wagner, depois que este se tornou a celebridade
consagrada do regime, o que David Strauss como jovem hegeliano
evidentemene nunca havia sido.
Bruno
Bauer,
inversamente
a Strauss mas na mesma trilha da transformação da crítica
teológica,
radicalizou sua posição entre os jovens hegelianos, chegando a
negar a existência histórica de Jesus.
A
cisão do
grupo que assim resultou,
não era até aí devida a qualquer atitude política de Bauer, que
não tirou conclusões desse tipo na
sua radicalização anti-religiosa.
Mas
logo depois Bauer transformou
seu apolitismo em atitude reacionária,
tornando-se anti-semita -
acusando os judeus de terem inventado o cristianismo - e colaborador
de Bismarck, cujo Reich a seu ver realizava o verdadeiro socialismo.
Aqui
seria oportuno lembrar que na Alemanha todo o cenário romântico é
um cenário de alta agitação política, especialmente da revolta
estudantil, cujo pivô
é o nacionalismo, uma vez que as regiões não estavam ainda
unificadas e havia a sombra do império austríaco, numa situação
que beirava a guerra civil. Bismarck representou,
já tardiamente,
a unificação alemã, porém não democrática mas inteiramente
votada à industrialização imperial-neocolonialista. Para
Carpeaux, o
importante nesse ponto é obsrevar que a recusa
baueriana da transição do pensamento à ação foi ultrapassada
entre os jovens hegelianos somente por Marx. É
verdade, mas somente num plano de ideias
políticas.
Na
história da época
o Manifesto Comunista e o Capital não foram trampolim
do ativismo.
Por
um
lado, o
ativismo já
vinha desde inícios de século bastante intenso como cenário de
confronto interno,
com os movimentos organizados enfrentando a mais dura repressão do
regime.
Mas
assim que este quadro de revolta nacionalista mudou para abarcar
os movimentos operários europeus, não foi imeditamente o marxismo
qualquer força de propulsão. Ele só começa a ser preponderante na
prática desde inícios do século XX.
Asuperação
por Marx e Engels do que designaram,
desde sua associação teórica formadora da concepção própria, a
utopia do socialismo francês, deveu-se conforme Carpeaux à
substituição do substrato
ideal da dialética
de Hegel, por
um substrato
material.
A transformação da filosofia em ação resultou dessa manobra que
sublinha Carpeaux não ter sido porém devido ao materialismo de
Feuerbach. E sim à
informação dos economistas do capitalismo inglês, vindo
Engels por sua vez de sua própria pesquisa sobre "A situação
do operariado na Inglaterra"
(1840).
Ao
que parece, podemos afirmar que a transformação da dialética
hegeliana em percurso infinito
e
em materialismo,
pode
ter sido devido a qualquer coisa, como a crítica história da
religião ou a interação da efetividade econômica, porém não foi
devido ao aprofundamento da temática dialética do senhor e do
escravo. Na
influência hegeliana posterior, de fato ela só aparece de modo
proeminente quando se trata dos críticos ferozes do hegelianismo, os
pós-estruturalistas, por causa da inversão dela em Nietzsche - que
porém não sucede propriamente como dialética.
Há
como vemos, algo de misterioso na Fenomenologia do Espírito. Ela é
ao
mesmo tempo um método e a ausência de método, na antecedência
pela consciência
em conflito,
de qualquer conceito ou disposição
do pensamento.
O conceito só vem a ser na
história
como
resultado do conflito
de consciência
a cada lance. A
questão das relações de Hegel e a metafísica não poderia assim
ser liquidada daquele modo abrupto do heideggerianismo, pela redução
à fórmula seca da presença de
método e confusão do Ser com os entes. Mas
quem
realiza a fenomenologia do espírito?
A
pergunta segue-se, a meu ver, bastante naturalmente da leitura da
Fenomenologia, mas não é colocada por
Bréhier, não sendo um referencial de hábito na tessitura dos
comentários a Hegel. Só
encontrei o tema desenvolvido por Jean
Hyppolite, analizando
"A estrutura da linguagem filosófica segundo o prefácio à
fenomenologia do espírito de Hegel",
deixando entrever
que ela esteve até
aí subentendida
apenas naqueles
que criticaram Hegel,
como se nunca reconhecesse a finitude e assim por colocar-se
no lugar de Deus (in:
Macksey e Donato.
A
controvérsia
estruturalista, São Paulo, Cultrix, 1976).
Mas
a questão nesse
pronunciamento de Hyppolite
não é quem fala na fenomenologia do espírito, e sim quem fala, em
geral, no discurso filosófico. E a
questão
que propomos
ele
tangencia apenas para
melhor a
este exemplificar.
Assim
como todo
discurso filosófico ao
mesmo tempo "implica uma norma de verdade", e "contem
sua própria crítica",
a
obra de Hegel se
singulariza,
ao
ver de Hyppolite, pelo
"ponto
de oscilação entre a arquitetura da Lógica e a consciência comum
da Fenomenologia". (ps. 171, 180).
Justamente
como vimos
na circularidade com que Bréhier caracterizou a obra hegeliana,
porém com a dificuldade pela qual em Bréhier o círculo é a
própria fenomenologia.
Algo irônico, não sendo possível aquilatar de início se Bréhier
está desvelando o sentido próprio das fenomenologias, serem
hermenêuticas da consciência e assim voluntariamente circulares
quanto à posição do objeto;
ou se trata-se aí de uma atitude crítica frente à dialética.
De
fato a introdução de Bréhier ao seu desenvolvimento acerca da
Fenomenologia do Espírito é bem estranha. Como
se sabe, em Hegel o conflito das consciências, que eclode em seu
encontro, assim que elas
ultrapassam
o nível primário da representação de objetos, significa asceder
ao nível secundário do reconhecimento dos sujeitos. Porém este
nível torna-se conflituoso, posto que cada
um se
representou primeiro, ao cabo do desenvolvimento do primeiro nível,
como a consciência geratriz da representação objetiva, condição
de possibilidade do objeto representado.
Uma
sutil mas
momentosa forma de ultrapassar criticamente o kantismo, sem dúvida.
Mas o importante é que o desenvolvimento do segundo nível é
reservado apenas ao escravo, como a um dos status de consciência
dentre os dois como resultado do conflito, em que uma subjugou a
outra e coalesceram na história as posições do senhor e escravo.
Obviamente
o desenvolvimento
do conflito só tem sentido para quem quer libertar-se.
Para o senhor o conflito terminou na sua vitória que fez do
antagonista o seu escravo.
Agora,
porém,
o desenvolvimento da consciência do escravo vai implicar o retorno
da representação como o problema dessa consciência - já não como
o tranquilo dar-se objetivo
da coisa. É
assim que a Fenomenologia se transforma em filosofia. A cada lance
interno ao desenvolvimento do segundo nível, uma filosofia do objeto
foi produzido,
correspondendo a um sistema na conhecido na história das ideias.
Os
vários sistemas filosóficos que coalesceram um após o outro são
assim reinterpretados como posições internas à consciência
desenvolvendo-se, não mais como de todo independentes um do outro.
Em
geral essa reordenação subjetivante da história das ideias é
romântica e não algo
próprio de Hegel.
Sua
epítome é ter-se feito ela mesmo um novo sistema, o "ecletismo"de
Cousin, porém se assim já se torna criticável, a vemos apenas como
interpretação do pensamento também em Schelling.
Hegel inova grandemente por ter feito dela
a politização crítica da representação objetiva. Nenhum pensador
colocou a dialética do senhor e do escravo antes, na condição
mesma da representação possível.
Mas
assim também, junto à consciência de si na representação, a
história
fenomenológica
se movimentou no rumo do progresso político que envolve o
reconhecimento mútuo dos sujeitos de status. O conflito realmente
continuou na resistência do escravo, em função do progresso
técnico oriundo do seu trabalho. Estados foram
formados, e Estados se sucederam como graus até a tomada do poder
pelo sujeito liberado da nacionalidade, na forma atual do Estado de
direitos civis
- já não portanto, de classes ou status,
mas da cidadania como igualdade política.
Vemos
que a reordenação da história das ideias corresponde em Hegel não
só a posições da consciência até a intersubjetividade
autoconsciente,
o reconhecimento daquilo que a nós hoje é óbvio, que todos são
iguais em status existencial, portanto
todos tem os mesmos direitos políticos, os deveres são recíprocos
e não distintivos hierárquicos de poder.
Mas
também
corresponde à interpretação dos sucessivos sistemas filosóficos
em termos de posições políticas no progresso do espírito. O
importante e verdadeiramente escandaloso em Hegel é pois, isto: o
progresso na história foi feito pelo escravo
e não pelo senhor,
quer
seja história da técnica,
política ou das ideias, e a reunião destas numa
realidade que é história, é
o que podemos designar a "fenomenologia
existencial".
A
escravidão não é uma condição racial, mas humana. Pode-se
afirmar que transcendendo
a diversidade de raça, é
originária, porém a origem está deslocada, já não sendo análoga
a de um objeto
fisicalista.
A
origem conflitiva não tem por correlato uma essência idêntica a
si,
mas posições de ser desigual,
inter-relacionadas numa oposição dialética.
A
"humanidade",
o homem, como
afirmou o pirronismo antigo, é aquele ser que está em litígio
quanto à sua própria essência.
Hegel concordaria com isso, e de fato ele tomou o partido dos céticos
na antiga peleja entre estes e os estoicos. O ceticismo ele
colocou em
um grau acima do estoicismo na história da liberdade, porém
para Hegel se o ceticismo é verdade, ele não é a verdade inteira,
que não se esgota no eterno debate dos sistemas contraditórios
entre si,
mas conduz à autoconsciência da liberdade plena.
Ora,
não obstante tudo isso que é a base conhecidíssima da
Fenomenologia, Bréhier a introduz conforme os seguintes termos: "A
Fenomenologia descreve
um duplo movimento balanceado: aquele
pelo qual o sujeito, procurando a certeza num objeto exterior, a
encontra finalmente nele mesmo, e aquele pelo qual o sujeito, para
se afirmar, se opondo
primeiros aos outros sujeito que ele destrói
ou assujeita
("qu'ill détruit ou assujettit"),
se reconcilia com eles no Espírito;
no total, a história dos erros do Espírito fora de si mesmo antes
de se reconhecer tal como é."
Porém
não ocorre na
fenomenologia de Hegel qualquer
progressiva afirmação de um sujeito que começou
por destruir ou assujeitar os outros.
O
correlato do desenvolvimento fenomenológico
hegeliano não
é a consciência como única, mas como oposta àquela que embora
sendo tal, não
se desenvolve jamais, por
sua própria opção existencial, na qual se fixou na interpretação
de si como sujeito
do senhorio.
Podemos
designar a esta
fixação
o estereótipo da subjetividade, a identidade e não o ego.
Observando
da nossa posição contemporânea, já amplamente informada pelo
retorno da psicologia do ego após o positivismo, a posição de
Hegel assoma muito surpreendente pela sua atualidade. Como ressaltei
antes, o romanticismo descobriu a psicologia do sujeito, mas como
fato primitivo,
digamos, funcional. A teoria do esforço, de Biran, o expressa bem. A
consciência é o correlato unívoco
e não dialético da
experiência objetiva. Uma vez que em
meu esforço
tenho de me deter
porque
me canso, constato que a matéria me faz resistência,
e assim deduzo que sou diferente dela, que sou um Eu ativo
relativamente
a ela.
Após
o positivismo, o ego como
o correlato da retomada do sujeito em
psicologia e antropologia, ao
contrário
de fato primitivo, coalesce
apenas aos três anos de idade na criança do mundo desenvolvido, e
já ressaltei bastante que isso implica que não coalesce nunca na
pessoa do mundo subdesenvolvido enquanto tal.
Assim
o que hoje podemos designar o sadismo fixado do senhorio, de fato é
outra consciência relativamente ao ego desenvolvido que se
especifica nessa qualidade devido à sua capacidade moral de
reciprocidade,
a intersubetividade hegeliana.
O
deslocamento da origem que é o pão cotidiano da ciência atual, foi
primeiro o que Hegel realizou na Fenomenologia do Espírito.
Mas
o conflito das consciências se tornando assim internalizado na
atualidade, ele
distribui as posições diversas na história, portanto aí não
internalizado mas sim tornando-se o princípio
de
classificação científico-diferencial
dos
povos - e uma vez que a diferença
de raça
(biológica)
já não subsiste na biologia da era genética.
O
ego
desenvolvido é assim a classificação puramente científica de
um
regime político constitucional democrático normal,
o critério da legalidade
em
si mesma,
enquanto aquela consciência privadamente
capaz de respeitar
a
privacidade dos
egos, assim sendo,
ou
estruturalmente
pressupondo
ser, respeitada
a
sua privacidade do
mesmo
modo por eles.
Quanto
a
uma introdução sucinta dessa questão das relações da
fenomenologia hegeliana e o desenvolvimento científico, como um
proposto
tema
da
virada hegeliana
da história,
o melhor aqui seria seguir a consequência
a
partir do que Lacan recolhe em seu Seminário de 1969/70
intitulado "O avesso da psicanálise"
(Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1992). Assim
ficando por ora suspenso o estranho motivo que se seguiu dessa
trajetória
de duzentos anos de teoria do sujeito,
a saber, que os povos dominados pelo colonialismo ocidental, sejam os
classificados pré-ego-lógicos,
e assim eles é que se definem axiomaticamente como a outra
estrutura, a da consciência despótica.
A
suspensão provisória desse motivo atende à inteligibilidade
do conceito, pelo qual é apenas a presença da constituição e da
prática de legalidade democráticas, o critério que permite definir
o estágio da consciência enquanto desenvolvida, ou sejam,
ego-lógica. Se
clama aos céus a injustiça, não há porém crítica sem conceito
criticado, e se trata no interesse mesmo desse clamor do
deslindamento da aporia pela qual até agora nenhuma
teoria foi capaz de dar conta dessa
assimetria enquanto uma teoria que fosse capaz de subtrair-se
aos efeitos dela, de modo que não importasse como o contrário do
despotismo o contrário de si na condição de não-moderno-ocidental.
Ou
seja, ninguém tem o conceito, aqui ou alhures, e a
razão disso
é
simples. A condição da democracia normal coalesceu na história
como
o
ocidente científico-industrial. Na democracia, se trata da verdade,
isto é, da ciência. A instância definidora do critério da
legalidade é posta como ele mesmo, a cientificidade. O normal
é
ao mesmo tempo a existência da ciência como o produto da
consciência, e o que a ciência julga tendo por objeto a consciência
comum,
normal
(não-científica).
Lacan
está bem cônscio de que urge hoje em dia, como estava ele, às
portas do maio de 68 assim como da revolução cultural maoísta, e,
mais geralmente, da guerra descolonizadora, onde
a Europa se saiu tão mal, torturadora genocida com objetivo de
impedir a independência de continentes inteiros subjugados
vergonhosamente por escravismo óbvio e direto, reconsiderar
o hegelianismo. Sendo este o horizonte originário de qualquer
"discurso do mestre", despótico ou revolucionário.
O
termo "mestre" que se usa na tradução
de Lacan,
é importante considerar, pois o "senhor" na terminologia
hegeliana não é em
francês o
"monsieur"
,
mas sim o "maître"
ai utilizado.
Em português não temos termos apropriados a essa diferença, mas
sim somente os
dois
significados em homonímia. O "monsieur"
é pronome de tratamento, como em "Senhor"
fulano.
O
"maître"
é substantivo, significando
"senhor" na acepção de
"proprietário"
de escravos
ou
de coisas,
ou aquele que governa,
sendo este
só o sentido hegeliano. Porém
o francês também é ambíguo, pois "maître"
tanto
é "senhor"
nesse sentido de dono
e/ou
governante, como significa alternativamente "mestre",
na acepção de "professor"
ou "detentor"
de um saber.
A
ambiguidade é bem explorada por Lacan.
Como
efeito retórico,
resulta uma política da semântica.
De fato
esse é já um tema bem hegeliano, pois
podemos deduzir que o efeito de história, a cada lance
da fenomenologia,
como
da
subida do nível da consciência devido ao progresso ensejado pelo
trabalho e problematização do escravo, resultou nesse contrário
que era um regime político qualquer, se ante-moderno, despótico de
algum modo.
Logo,
cada lance de emancipação conquistada pelo escravo, foi expresso na
história apenas na letra de uma conquista nova do senhor, como
de
um regime novo
do senhorio,
que podia expressar na inscrição de sua lei, apenas ao senhor como
sujeito (esterótipo) da história. Somente a identidade, o que em
termos de regime significa o correlato legal apenas de status e não
egológico.
Essa
reversão não é concretamente feita apenas por esquemas de
apropriação "ilegal" - do nosso
ponto de vista
- daquilo que o escravo sabe e produz.
É feito como a efetividade mesma do poder enquanto instância dupla,
de dominação mas também de organização. O percurso do
significante que vem a ser o progresso histórico do saber, em Hegel,
a história das ideias ontológico-políticas, só
pode porém atingir o nível do registro efetivo como o correlato da
organização.
O estofo da história não é forma nem conteúdo, mas o conflito
agudo entre ambos até que eles possam ser acomodados estruturalmente
como expressão e expressado. Até
aí, inversamente, eles são o recalcante e o recalcado, o
apropriante e o apropriado, o senhor (maître) e o escravo.
Porém
o que faz Lacan nessa
compte rendue
do hegelianismo que é o seu pronunciamento de fevereiro
naquele Seminário,
é um remanejamento terminológico não apenas nesse nível retórico,
pelo qual o "maître"
hegeliano vem a ser expresso mais como o nosso "mestre" do
que "senhor". Também o correlato muda. A história do
conflito de senhor e escravo passa ao inconsciente do conflito do
mestre e da histérica.
Não
creio, porém, que Lacan tenha realmente surpreendido Hegel nisso
pelo
que se revela a um olho clínico que a histérica, se está de algum
modo dominada pelo seu mestre - Lacan critica Freud por achar
este
que apenas ela o supõe ao invés de haver uma dominação real - não
está de forma alguma isenta de desejar profundamente a esse mestre.
(p.
99)
Assim
Lacan não chega a dizer que a histérica é o escravo, pelo
contrário (p. 98), mas
de fato há aí uma ironia da história, que
ele trata como
inteiramente
a do Saber - para onde ele
está aí
deslocando
de modo explícito e peremptório, portanto, toda
dominação. Creio
porém
ser
interpretação sustentável
mostrar que após o momento originário da consciência capaz
de se desenvolver,
que é o do temor absoluto
do escravo perante o
seu
senhor,
na captura,
o
que se segue
em Hegel
é precisamente um desejo que não pode se desembaraçar do seu
outro. Esse
embaraço do escravo é porém a saúde da consciência, se apenas
ela tiver tempo para desenvolver-se em autoconsciência. O embaraço
é a verdade do espírito, dialética e não ideal na acepção
platônico-identitária do termo. A
patologia do senhorio em Hegel não seria justamente a ambiguidade
que constitui o senhorio, entre a alteridade
que captura
e a negação dela
enquanto o seu
senhorio?
Essa
indagação traduz esse nosso embaraço diante disso. Assim que o
escravo se atribui uma propriedade, (seu senhor), ela é perda ( de
si ); mas assim que o senhor se atribui uma propriedade (seu
senhorio), ela
é uma posse cujo significado não é o escravo,
mas sim a produção.
Não
obstante o senhorio ser naturalmente posse de escravos,
a escravidão é essa dupla alienação, da coisa e do discurso, na
qual o escravo deixa de poder ser designado
como função produtiva.
Esta
é a geração de riqueza e civilização. Nas
eras míticas, a realização excelente do céu como
da ordem universal ou
a propedêutica missionária da volta de Cristo.
É
algo notório que quando se começou a pretender substituir o escravo
pelo assalariado, no interesse da nova teoria das riquezas, a
de
Smith, surgiu
um argumento que visou o contrário da humanitária
condenação da redução do ser humano a
fonte de proventos de outro ser humano. O
que se tentou afirmar, e Weber acreditou nisso, foi,
ao
contrário, que a
escravidão não é lucrativa, que é economicamente desvantajosa,
e
que esse é um exemplo da
irracionalidade do colonialismo clássico relativamente ao
capitalismo definido como sistema industrial.
Hoje
em dia, quando o pior descaramento presentifica
o capitalismo como mera empresa de bandidagem internacional,
bem inversamente ao probo sistema racional-legal com que sonhava
Weber, estamos
numa batalha contra o governo corrupto
cujo objetivo é suspender o direito de aposentadoria
dos trabalhadores, assim como a obrigação com a educação infantil
e juvenil,
qualificação da mão de obra
universitária, erradicação
da fome
e
megafavelamento, pela
canalização dos altíssimos impostos a estes requisitos básicos.
Governos
asseclas
de máfias capitalísticas cujo tratamento da população se resume
na extorção econômica e na opressão abjeta do atendimento,
inclusive por meios cotidianos de total abuso da legalidade já
constituída neste país
além de humilhação ostensiva de clientes discrimindos,
para distribuição de serviços a que se obriga o país inteiro,
como a internet - na
"globalização" o
país tonou-se função das multinacionais que a monopolizam,
inclusive
eleições
e
documentos públicos,
assim como aos demais setores estratégicos antes industriais
estatais.
Pois
que o escravo não era vantajoso porque o senhor devia sustentá-lo
quando já não podia trabalhar por
idoso ou
quando criança, eis o argumento em que até Weber acreditava - para
sustentar que o colonialismo ou o imperialismo não são componentes
definidores do capitalismo, contra os que se pronunciaram achando que
sim.
O
argumento da exploração total na colonização escravista, a
serviço do capitalismo, mostra-se até hoje mais valioso do que
poderia parecer como mera questiúncula ultrapassada por
um século de socialismo. Pois a repetição do imperativo do lucro
pelo neoliberalismo econômico já é feita numa época em que o
desconto da previdência e os
altos
impostos
estão
embutido nos salários,
descontados em folha,
e a
medida da morte como se a tem designado
não prevê que se suspendam junto com a prorrogação da
aposentadoria a uma idade cada
vez mais difícil
do brasileiro atingir - mais de sessenta e cinco anos
de
idade
- enquanto a lei atual a exige em trinta ou trinta e cinco anos de
serviço,
dependendo da categoria.
Enquanto
escrevo, estamos há vários meses com o
pagamento
regular do
salário simplesmente suspenso, por ser de servidor público
(professores, médicos, administração,
justiça
e segurança),
isto é, sendo o empregador o Estado, porque o presidente corrupto
está se negando a liberar o nosso direito constitucional
até que
os parlamentares se decidam a aprovar a medida da morte que são
essas pseudo-leis de total achincalhe ao trabalhador,
por ele propostas.
Estamos
em maio, aguardando a segunda metade do pagamento de março. Algumas
outras
designações do mesmo setor
categorial
nem receberam ainda a primeira. A
greve geral de há três dias atrás resultou no espancamento, por
ordem do governo, dos militantes da manifestação, com a morte de um
deles por espancamento.
O
espancamento brutal
tem sido o procedimento do governo desde o início das manifestações,
há quatro anos, devido à suspensão dos aumentos previstos por lei,
carestia, tráfico de influências e mau atendimento generalizado.
O
presidente é oriundo de partido de esquerda histórica
("pmdb"),
empossado por integrar como vice a chapa cuja liderança, da
nova
esquerda ("pt"),
foi afastada no impeachment do
ano passado
por
corrupção comprovada,
após tempo superior a dez anos de mandatos consecutivos.
Se
o trabalhador do terceiro mundo é assim
ainda
e cada vez mais
escravo - inclusive centenas de empresas privadas realmente estão
acusadas de escravismo formal,
além do governo
- as condições apenas reproduzem o que na Europa foi a
superexploração do operariado do século XIX, antes
da exportação do conflito radical do
trabalho para
o terceiro mundo
pelo neocolonialismo.
Ou seja, sem que se tenha de fato erradicado o problema real, que é
a preservação
de um grupo de superexploradores ultramilionários
do capitalismo central,
que se mostram porém úteis ao
imperialismo, como meio de transformar as nações seja em potências
("centrais)
ou
em seus explorados
("periféricos").
Mas
mesmo naquela
circunstância
do século
XIX
a crença no capitalismo como racionalidade
industrial
resultou
da
crença que
caracteriza o próprio
Marx,
na
irredutibilidade essencial de escravo e assalariado,
e nessa irredutibilidade como a axiomática do progresso da
subjetividade humana,
assim protagonizado pelo capitalismo.
Em
todo caso, quanto às relações Hegel-Freud, equanto emblemas de
saber absoluto e teoria do inconsciente, a
conclusão seria que a
assimetria do senhor e do escravo em Hegel introduz o que Freud
designou como assimetria
do gênero sexual. Ainda que assim Freud explicasse Hegel e não o
contrário, eles estariam falando essencialmente sobre a mesma coisa,
essa clivagem
na interioridade da essência que resulta na temporalização
disjuntiva do seu vir a ser.
Ela se recolhe somente num só-depois, na qual porém ela se depura
de
um possível que seria uma outra dela mesma, a (in)-consciência
despótica.
Aparentemente o primeiro "Seminário"
de Lacan,
em 1954,
segue essa linha,e,
para bem ou mal, há
intérpretes de Lacan como um liberal. Eu
mesma desenvolvi várias reflexões na base dessa premissa como ao
menos viável.
Mas
para
o
Lacan
de 1969,
como podemos constatar neste
presente estudo
especialmente voltado ao hegelianismo,
a "ambiguidade hegeliana"
consiste
na clivagem de consciência e alteridade que caracteriza a seu ver o
percurso da Fenomenologia do Espírito,
entre essas duas instâncias, a
Selbstbewusstsein e a Aufhebung, que agora
para ele são
incompatíveis.
Assim
ele enuncia claramente a necessidade de "uma outra via de
tentativa",
esta que seria da "experiência analítica" (p.
94).
Aqui a "experiência
analítica",
designado
Analyticon,
a via
da modernidade crítica do antecessor
Satiricon,
não
é pois aquilo mesmo que está sendo
feito, mas
o que está servindo de parâmero, como
"à qual cumpre voltar sempre para cingi-la melhor".
Procederei
como se o referencial deste "la" fosse a "experiência
analítica"
em vez da "ambiguidade hegeliana", não obstante o texto
lacaniano ser confuso a propósito. Pois não se trata apenas de uma
interpretação de Hegel por um
Lacan
confessadamente entusiasmado
por
sua
leitura recente de Kojéve,
mas
também de tomadas de posição muito
pessoais de
Lacan frente à psicanálise como possibilidade acadêmica
- na pressão do seu confronto com Vincennes, universidade que estava
ensinando então a psicanálise,
paralelamente à intenção de aclaramento de suas diferenças
relativamente a Freud.
O
acavalamento pretextual assim determinado, de fato tratou-se neste
texto de uma organização estupenda, posto que Hegel vem a ocupar de
fato
nisto
tudo
a posição de pivô.
Ou
a metonímia desse
pivô que é realmente a ciência, em seus desdobramentos, ao mesmo
tempo, de função autodeterminada da consciência,
assim o oposto e
o produto do inconsciente;
do
progresso histórico-antropológico
que se desdobra na realidade capitalístico-imperialista
contemporânea;
e
no papel que a universidade desempenha aí como marcação do poder
da função progressista.
A
ambiguidade hegeliana
de
Aufhebung e Selbstbewusstsein não é elidida, mas
ela
é deslocada para o inconsciente, recusada pois como tal para que se
defina por outros constituintes.
Aqueles
do inconsciente,
como
vimos, ora
a
profundidade de nós mesmos em que, como
num
laboratório, se destilará a consciência
organon
da ciência;
ora a
instância da patologia como o avesso único
da
possibilidade de ciência e
consciência. Fala-se,
a propósito, de "avesso" no título desse Seminário
. Lacan mesmo se enuncia como esse avesso da
psicanálise.
Mas assim ele consegue
se
colocar
nessa incrível posição de acentramento relativo ao pivô
hegeliano,
como também
o seu avesso,
ao imiscuir-se,
por
essa sua
aversão
do saber absoluto,
entre
a ciência e a consciência, como
desta vez a ambiguidade de
Freud.
Ora,
não é ele, Lacan, quem se
coloca aí, podem replicar, mas ele, Lacan, aí coloca, e muito bem,
a histérica,
como a figura da inconsciência que não faz, e faz, ciência -
enquanto o
objeto
da ciência, mas também, sujeito
do "inconsciente"
patológico,
doença
do logos, que sofre da lógica-ciência como do que não consegue
suportar,
etc.
O
acentramento, aliás, já está implicado na posição da
modernidade.
Nela,
ou o ser dela mesma, é em que a
ciência
vem renovar, nessa figura da consciência que Lacan trata em termos
de saber universitário, o
fiat condutor da história enquanto da - e a própria - dominação.
A saber, "o" Saber, que figura na distribuição figurativa
de Lacan, entre Hegel, Freud e a histérica, como o quarto de giro,
"objeto
a"
que significa a produção ou o objeto produtor ou o meio de
produzir.
Nessa
qualificação
de quarto,
o saber é "a" mestria, o discurso do mestre/senhor. As
outras três figuras são igualmente discursos, e nelas temos: o
dublê Hegel-Universitário; o dublê Freud- analyticon; e a
histérica, solitária, sem dublagem. Pois em que Lacan escava o seu
descentramento aversivo de tudo isso, ao mesmo tempo que recuperador
de alguma coisa de tudo o que suprime, a saber, o Analyticon
que espera tomar apropriando para si, é
nesse reparo de sua lavra a Freud.
Por
mais que ela
tenha acreditado nisso, a psicanálise freudiana não é a dublagem
da histeria, assim como não é a dublagem daquilo que está antes,
avesso, ao discurso do mestre como ao poder e o senhorio.
Esta anterioridade
que Lacan considera ser o mito
(p. 95), nele
mesmo a disjunção do saber no inconsciente, assim
acreditando Lacan
por sua vez diferenciar-se de Freud. Eu não acredito muito nisso,
uma vez que a anterioridade os reúne perfeitamente, mas
para Freud, segundo Lacan, o saber do mito
disposto pela ciência
restitui o mito em si, e estaria
aí o erro.
Porém
há mitos e mitos, e Lacan vai se decidir, logo à frente, por uns
contra os outros, o que enseja a pergunta sobre o que a ciência
teria a ver com isso. Nada, justamente, é o que Lacan pretende que
seja. A ciência não apreende o que é uma prática diversa de si,
uma outra produção. Dessa
alteridade,
a gente só poderia suspeitar, nunca atribuir um juízo sobre a sua
verdade
- em termos de não ser verdade, só
por não
ser ciência, o que diz.
Porém como Lacan espera não ter
atribuído um juízo acima de qualquer suspeita, mais acima ainda por
estar totalmente acentrado em relação a qualquer juízo com um
critério auto-atribuído justo,
em seu ajuizamento
da anterioridade?
Além
disso, a figura da consciência que Lacan, invertendo Hegel, dispõe
como o discurso do mestre, ao
invés de qualquer uma do escravo, e quanto a ela, só uma, só
aonde a consciência se dispôs alguma vez na história como produto
pensável de uma falsidade exemplar que, porém, coalesceu como o
substrato da dominação como a verdade, vulgo o saber, de
fato conjura toda a primeira operação de acentramento.
O
que ela tinha a fazer era colocar o nada no lugar próprio, ou seja,
em toda e nenhuma parte, aí onde Lacan, para homenagear
Merleau-Ponty, julgou
que se deveria desaferrolhar a verdade - que Hegel teria sido quem
trancafiara
com um instrumento para isso nada menos que "perfeito",
segundo
o termo lacaniano para designar o
saber absoluto ("Outros Escritos", Rio de Janeiro, Zahar
Ed., 2003, p. 211).
Soltar
nesse caso equivalendo a mandar passear, dar
o fora ou dispensar, não é que a verdade devesse ser preterida pelo
seu avesso, a mentira. Mas sim que não há a verdade pretendida do
inconsciente algum,
e, naturalmente em se tratando de Lacan, o formalismo teria mil vezes
razão ao denunciar imediatamente que assim se atribuiu uma verdade
da inverdade ou falta de
verdade. É verdade, Lacan o afirma ipse literis, num memorável jogo
de palavras, porém mais que isso, o que ele faz aí é reverter o
acentramento por um outro centro estabelecido - e assim, a
modernidade.
Litotes
do nada que é logo alguma coisa, esse nada é "afeto
central"
, e mesmo "em torno do qual tudo se ordena"
,
não o medo,
mas a angústia, não um outro que oprime, mas uma ausência
(p. 152).
"Tudo",
não apenas como qualquer outro afeto, mas a condição afetiva
propriamente.
O
que exprime o litotes, que introduz um nada antes
de algo, de maneira tal que jocosamente induz a impressão de que é
o nada a condição desse algo, não obstante o expresso ser que uma
coisa não tem intrinsecamente
nada a ver com a outra. O
raciocínio
a propósito do inconsciente
aí é simples, e não constitui o problema, porém sim essa
sobreposição
estranha das conotações de "centro"
ou "fundamento"
por um lado, e o que isso quer dizer, por outro, que é, precisamente
"esse deslocamento que não cessa nunca".
Um
nada que não é ausência de objeto, ao contrário do que dizem
amiúde da angústia, mas sim, ao
ver de Lacan, o
vir a ser sempiterno
do gozo, o segundo termo do litotes, introduzido pelo nada. (p.155)
O
raciocínio é o seguinte. Se não somos
bichos não-humanos, e mesmo se os bichos, eles, não são coisas,
plenas o tempo todo delas mesmas, é
porque o gozo que
nos distingue é
algo completamente oposto ao que usualmente entendemos por
satisfação. Nesta
só podemos pensar a conotação da plenitude da coisa. O gozo, pelo
contrário, é o corolário dessa espécie de ausência qualificada
- e eis o problema: como? - desejo.
O
que satisfaz um desejo não é nunca a coisa, mas um signo
que a representa,
e é o signo que está sempre representando algo,
um
desejo para um sujeito,
como a um outro signo. Para
haver signo, houve antes angústia sintomática do
pressentimento que um dia tivemos dessa representação infinita que
resulta em nós mesmos, em vez de
sermos
uma consciência.
Ou seja, antes, houve o signo como o rastro
ausente
da coisa, um traço do que não
há, e
deveria
haver.
O
bebê estabeleceu um desejo a partir de certa repetição, constância
do que o faz gozar, nesses intervalos da ausência de satisfação,
e o estabeleceu por intercessão
coerente
de signos
correlatos aos afetos desse gozo.
Lacan
julga que o signo coalesce como a economia inconsciente, não apenas
pelo estabelecimento freudiano
de
circuitos mnésicos, pela organização primária que o bebê opera
entre seus afetos.
A propósito,
Melanie Klein observou o que julgou um primeiro circuito que o bebê
estabelecia,
entre a
urina
e a
defecação.
Mas
sim o que conceituou "traço unário", um traço vertical
como a marca primitiva de uma escrita. A
estrutura é pois, intrinsecamente significante,
e assim a lógica, a ciência, mas se
igualmente já o mito, não se poderia, a partir do nada
centralizado, diferenciar as instâncias como o direito e o avesso da
verdade. O
gozo instaura -se na nadificação da coisa, em vez de na plenitude
dela mesma, porém assim, como vimos, a única instância é a da
alteridade de um Outro que é único, unicamente repetição desse
nada, na remissão infinita de significante a significante - letra
após letra, espaço após espaço, operação após operação.
Esse Outro, é ele quem
goza, e as coisas aqui se complicam um pouco, posto que ele
goza do Eu
mesmo, esse "eu" que porém é apenas, como vimos, o
sujeito do deslocamento infinito (gozo). A inversão de Hegel por
Lacan não seria tão grave, se fosse apenas por grafar ali onde se
deveria ler "consciência", a palavra "gozo",
quando se trata de especificar o que é um sujeito, um ser humano, um
bicho "homem",
etc. E Lacan, para figurar os quatro discursos, universitário,
do mestre, da histérica e do analista, fala
de cada um como um aninmalzinho de quatro patas, cada pata sendo um
componente do inconsciente, e cada figura sendo uma distribuição
diferente deles.
Uma "associação" diferente, é o que ele expressa.
Não me ocuparei da
definição desses componentes,
e de
sua
diferença, como da justiça, distributiva, aqui.
Mas
sim do que é grave. Esse gozo infixável,
insaciável, que
qualifica um eu
humano,
ele como vimos qualifica também, e é o
que
qualifica propriamente, o seu contrário, o grande Outro, o
signo (significante) que
goza do "eu". Eis
porque um saber não
existe.
Por ser a definição de um objeto por um sujeito, mas nessa relação
reduora da coisa em significação, deslocamento puramente
significante, lógica científica não é objeto, nenhuma coisa
subsiste, há apenas as possibilidades combinatórias ou tópicas do
significante,
como se a álgebra que é essa originareidade toda, houvesse sido
redefinida como a geometria da página,
espaçamento (possível)
do signo (só significante).
Possível,
isto é, que realmente inscreva uma figura, uma ordem repetível, uma
Gestalt.
Então
é isso que é grave,
a meu ver,
na inversão lacaniana de Hegel. O inconsciente não pode ser senão
do senhor e o senhorio em si. Porém
aqui
a anterioridade já não é bastante
- como do inconsciente puro, à consciência que ele destila.
Freud foi ultrapassado por Lacan, ao menos na consideração deste,
ao que parece, por ter sido neohegeliano.
A
partir daí a impertinência de Lacan
contra Hegel faz-se progressiva. O pivô Hegel
traveste o universitário,
passando
a concentrar todo o ressentimento lacaniano
contra a discriminação que sofreu no meio psicanalítico
tradicional, ou, mais, contra a possibilidade dessa instituição da
psicanálise como medicina
universitária
que
se
fazia em Vincennes. Mas esse transporte afetivo funciona como o
"giro" do quarto analítico, deslizamento dos fundamentos
que permite Lacan revezar a histérica diagnosticada em seu projeto
"revolucionário",
que consiste em subverter não o saber, mas a
ignorância
do mestre.
Então
aqui, a dificuldade da exegese desse texto, entre um senhorio que é
dominação histórica da "verdade"
como coisa feita do saber, e dominação que é o saber como o
correlato surrupiado do escravo. Conforme a equação que já
verificamos: o senhor é o sujeito, o sujeito não é do saber, mas
sim do gozo. Embora ele seja "suposto" saber, consciência,
"aí", etc.
Se o saber não é a subjetividade do senhor, o saber é o escravo -
e eis o que Lacan acha exegese autêntica do próprio Hegel. Mas
nunca para valorizar esse saber. Além
de tudo isso, o escravo é quem sabe o que o senhor ignora como o
sujeito do seu gozo, que
é o
escravo.
O
Outro do senhor não é pois o escravo, mas esse
gozo que o qualifica. Mas
também
o escravo não se torna assim nunca o
emblema do
sujeito
segundo Lacan:
ele sabe que é o gozo do Outro. Por algum motivo, Lacan nunca admite
isso. Pelo contrário, ele aliena o escravo da possibilidade de
entender-se o significante e o inconsciente.
Em lugar do escravo, é a repetição
de
um senhorio, como de certa ordem
do significante organizado desde o inconsciente, que
funda a dimensão (humana) do gozo.
Recolhido
o discurso do avesso, aí distriuído entre as páginas em que
podemos encontrar a referência explítica, 10, 82, 16, 56, na
tradução de que disponho.
O avesso da psicanálise é a aversão lacaniana da lei como
instância primordial do inconsciente,
em vez do gozo, isto é, desse estranho imperativo que ele designa o
mais de gozar infixável, e o que justifica desde a mais profunda
essencialidade idêntica a si do ser humano o senhorio. Associado
pois, com o gozo - é preciso lembrar insistentemente - ao invés de
com a lai
.
É por isso que ele vai infletir o seu próprio percurso
do
mito à ciência, que
vimos reversivo daquele de Freud,
e criticar o mito judeu como coextensivo à vontade dominadora da
ciência, ou
seja, tudo o que há para criticar na dominação é que ela não se
domina nessa mania sua de não
ser algo além da lei como avesso do gozo.
E a canalhice é querer ser o Outro do outro, pretender pois ser a
instância organizadora do seu - deste outro - gozo. Porém
é bem forçado julgar assim que tão logo o senhor esteja informado
de
que
o escravo goza, ele se tornaria ainda mais certo do seu senhorio,
pois o que é o escravo, senão o gozo do seu senhor? Ou
que isso seja a boa política, como a revolução da histérica.
A solitária é pois a clínica lacaniana
(...)
continua
Vejamos
o assassinato do déspota, o
parricídio coletivo praticado na horda primitiva, como o mito
inteiramente delirado por Freud. Para
Lacan, nenhum significado nisso. Trata-se de
...
um vocábulo tão forte para traduzir "transcendental" em
lacanês,
já que é proibido recorrer à filosofia, não existe, mas vamos ter
a ousadia. Trata-se da preexistência absoluta de
certa
lei da escrita, cuja origem com certeza é mais Levi-Strauss do que
essa multiplicidade teórica que caracteriza a "antropologia",
esta o único referencial dos saberes sobre povos cuja existência
temporal e espacial ultrapassem os limites da nossa esquina.
A
lei preexistente, que Lacan não quer como lei num certo sentido que
a mim agradaria mais por estar de acordo com o que todo mundo e a
polícia concordariam quanto aquilo de que se trata, esse...
perdão, "transcendental"- preexistente é o zero absoluto,
a impossibilidade geratriz.
Com efeito é o imperativo, condição de possibilidade, a priori, da
cadeia de Markov - por exemplo, se queremos saber onde vai estar a
população de mosquitos à beira de um riacho, daqui há algum
tempo, entre
a margem, a água ou o cimo das árvores, a cadeia calcula e informa
a percentagem com toda a segurança. Comentando isso, Lacan observou
que é possível por causa dessa impossibilidade primordial - Eis a
palavra! - primordial de que a percentagem correspondendo
à porção da população de mosquistos pelo
qual se começa o cálculo, vá para aonde já está. A
cadeia de Markov é uma das ases da cibernética, e isso vai conduzir
às
dus
fórmulas
logísticas
lacanianas
do homem e da mulher.
Estão à página 136
de "um discurso que não fosse semblante" (Zahar, etc.,
2009). Não
perceber isso conduz a várias situações estranhas, como a dos
sádicos
brasileiros, típicos de gang já reportada por historiadores agindo
na mídia ou por mim mesma constatado
agindo
na "sociedade"
- desse tipo a que não faltam os salários - cujo
comportamento maníaco é de se por a tratar alguém como se
estivesse morto - fizeram com Oswald, pelo que Sodré registrou e
todo o mundo já
sabia;
ora, a pessoa está ao mesmo tempo morta porém assim tratada para
morrer, do que resulta que não morre nem pode morrer, porque quem já
está morto não poderia morrer ainda. Porém quanto mais não morre
mais a gang se esganiça
na histeria de seus planos de claque mortífera para
sabotar aonde
a pessoa vai, de cartazes e out-doores pregados
pela
cidade, de
campanhas subliminares ou superminares distribuídas como traço
compositivo de qualquer daquelas
coisas
que possam
aparecer na televisão,
se ouvir em rádio ou se ler em jornal, de clonagem do seu computador
- etc, se existir - todos
tais planos para provocar a dita morte.
A situação aqui é igual aquela do condenado que não pode ser
executado porque, perguntando-lhe os selvagens ilheus conforme
costume destes para com estrangeiros, se queria ser sacrificado ao
deus da verdade ou ao da mentira, escolheu a este último, mas assim
não poderia
ser sacrificado porque para isso antes precisava ter respondido, mas
obviamente estava mentindo em sua resposta.
Que
não fosse semblante, signica que não fosse palavra, vai daí que a
escrita já não pode ser representação da palavra, porque o
discurso sem palavras é a escrita pura. Ora,
vemos pois que também não pode se designar primitivo, aquilo que
está antes da organização lógica da escrita escrita - isto é,
aquela que representa, sim, espantosamente, palavras.
Essa organização é o discurso do mestre que ssegura, e o traço
unário em nós é esse mestre que em nós se inaugura. Sabemos o
chinês sem nunca ter visto um ... "ideograma" como dizem
erroneamente, mas não se pode evitar o erro, aqui. Então, não se
entende que seja o caso de ser primitivo, porque é justamente
"originário" - por vezes também se acerta, assim.
Eu
tenho para mim, assim como creio que Hegel pensava, que se um desses
da gang for morto assassinado ficando bem expresso que o foi por
causa do crime nojento que anda cometendo reiteradamente, do qual faz
o pão roubado cotidiano que come com a maldita boca, eu tenho para
mim que deixavam a "posição" e se punham de acordo com o
comum dos homens ligeirinho. Mas Lacan não pensa assim. Que Hegel
pensa, como um sujeito honesto, com a cabeça e o coração em seu
lugar, a gente vê por isso que ele exortava para o caso de um
frenologista
vir lhe
dizer
- ele se dirigia então ao leitor, na Fenomenologia do Espírito -
que embora fosse este um cidadão honesto e pagador dos seus
impostos, tinha uma bossa num lugar lá no meio da testa e por isso -
não, não era cornudo - mas sim tendente ao crime, eis de onde vem o
termo boçal. Hegel exorta, para ir rápido, que
nesse caso
o interlocutor deve dar um soco na cara do frenologista.
Mas
como fiz ver acima, há mitos e mitos, primordialidades variáveis.
Lacan distorce consideravelmente a história ao fazer do mito judeu
um que não é mito, mas assim porque se parece tanto com a nossa lei
aquelas invectivas de Jeová contra o homicida Baal, a quem se deviam
sacrificar criancinhas, do mesmo modo que a Ifigênia da lenda grega,
porém nunca ninguém se lembra disso quando se trata de exaltar a
felicidade e a liberalidade dos gregos contra o oposto judeu,
e também contra a prostituição
obrigatória das adolescentes.
Lacan se indigna com isso, porque ao que parece ele é a favor da
prostituição, e segue Baal. A questão para ele é se Moisés foi
mesmo o déspota linchado pela horda, como sugeriu Freud indo atrás
de um tal Sellin, que aventou a hipótese a partir de certa
"interpretação" - não sei se é essa a palavra, dado que
nunca li nada que se coadunasse com isso na bíblia - da bíblia.
Então,
Lacan acha que não, mas para demorar-se em Oseias, de um modo
deveras sintomático, porque tudo o que a gente lê ali, tratando-se
de 1969, é que
ele ao mesmo tempo sabe que Oseias manda o recado de Jeová
consistindo em que o povo dele deve ver nele um marido e não um
senhor como os seguidores de Baal veem o
que seguem. Marido é "ishi", senhor é "baal" -
na língua de Oseias.
Ele
sabe, mas continua procedendo como se subrepticiamente fosse o
contrário. Como se marido e senhor estivessem propostos para serem o
mesmo na escrita de Oseias. Além disso, ele trata a lei
javista contra a prostituição e os sacrifícios humanos como "feroz
ignorância" de Deus. Esse Deus 'ignorante" eu não entendi
- de
que
Ele o seria.
Em
todo caso, já demarquei o suficiente que Lacan e Hegel não tem nada
a ver um com o outro, apesar do Seminário inicial de Lacan ter feito
parecer como se ele lesse Hegel como o enunciado da dominação no
inconsciente em termos do que o desenvolvimento da consciência - na
análise ou
na inteligência -
facultaria ultrapassar felizmente conforme as nossas esperanças de
um mundo melhor.
A
partir daqui é melhor voltar a Hegel, que é o mestre deste presente
estudo. E não Lacan.
///
Mestre
e senhor não são pois, o mesmo em Hegel. Porém,
e conforme a lei de litotes, convem nesse ponto retomar algo da nossa
crítica à leitura lacaniana
de
Hegel. Se ele começou por fazer parecer que era hegeliano, vemos que
é por uma tonalidade do seu espírito que permanece a mesma quando
se trata, depois, pelo
contrário, dele negar.
Quando
se trata de fazer coro ao psicanalista que,
não sendo de Bagé, contudo dá por encerrada a análise
mandando a mulher ir trabalhar,
a analisanda palradora a quem não se perguntou se tinha vindo por
ter ouvido, antes, falar tão elogiosamente em Talking Cure, ele
desdiferencia todos nós na base suposta hegeliana de que "todos
somos escravos" (zahar, p. )
Se
não concordamos com isso, porque não consideramos que Hegel
pense em termos de oposições de extremos simples como de todo e
ninguém, totalmente sem e totalmente com, etc., esse extremado tom
lacaniano
é
o mesmo portanto,
quando se trata, depois, de afirmar que todos somos senhores,
exceto as histéricas
que são porém, aquelas que os querem.
Mas
de um polo ao outro da carreira lacaniana, o que seu protagonista
expressa quanto ao que motivou a mudança de posição que
não
é, algo surpreendentemente, que ele descobriu alguma coisa, que
acrescentou algo ao seu saber. Pelo contrário, vemos naquele
Seminário inicial que ele entende - se bem ou mal não importa -
plenamente a dialética do senhor e do escravo como premissa
básica do inconsciente. Em 69 ele explicita, ao invés, ser
isso inconcebível.
O
contraste das citações vale a pena
- e isso relativizando um pouco a lei férrea do litotes, já que em
todo caso se trata de Hegel.
O
Seminário de 1954: "Antes que o deseja aprenda a se reconhecer
- digamos agora a palavra - pelo símbolo, ele só é visto no outro.
Na origem, antes da linguagem, o desejo só existe no plano da
relação imaginária do estado especular,
projetado, alienado no outro. A tensão que ele provoca é então
desprovida de saída. Quer dizer não tem outra saída - Hegel no-lo
ensina - senão a destituição do outro. O desejo do sujeito só
pode, nessa relação, se confirmar através de uma concorrência,
uma rivalidade absoluta com o outro, quanto ao objeto para o qual
tende. E cada vez que nos aproximamos, num sujeito, dessa afirmação
primordial, se engendra a mais radical agressividade - o dsejo do
desaparecimento do outro, suporte do desejo do sujeito". (p.
198)
O
Seminário de
1969: "Não se vê em absoluto por que teria que haver um senhor
surgido da luta mortal por puro prestígio. E isso embora Hegel diga,
ele próprio, que daí resultaria esse
estranho arranjo de saída".
(p. 180)
Enquanto
se via, um
etnógrafo poderia ainda confundir uma sessão de análise com o
canibalismo - lá está o analisando, um desses "primitivos
muito curiosos" a comer seu analista, "pedacinho por
pedacinho" (p. 196). Quando já não se deve ver de modo nenhum,
e
os primitivos já são os "originários", anteriores
em
todo caso ao "discurso do mestre", logo o avesso cem por
cento do saber, quanto a este na qualidade de absoluto Lacan avança:
"Graças a que?", indaga-se a propósito disso que para ele
é a falácia desse amontoado que ele faz das noções de escravo,
trabalho e saber. Responde: "Graças à série de mutações
dialéicas, ao balé,
ao minueto
que se institui a partir desse momento inicial e atravessa de ponta a
ponta, passo a passo, todo o desenvolvimento da cultura, enfim, a
história nos recompensa por esse saber que não se qualifica como
acabado - com boas razões para isso - mas como absoluto,
incontestável. E o senhor aparece como tendo sido o instrumento, o
Cornudo magnífico da história"
(p. 181) - mas também como o "empregadinho que faltava para
dar início à música" (p. 182). Que
o déspota seja feito picadinho do banquete antropofágico do
escravo, agora Lacan já não quer mais.
Entre
o "objeto
a"
lacaniano e o "saber
absoluto"
do Hegel lacaniano, confesso que não saberia
optar caso
eu devesse atribuir a somente um deles o prêmio de ter
mais se pretendido incontestável.
Antes
de voltar-nos ao Hegel possivelmente não lacaniano,
seria porém importante observar a discrepância entre
o
matematicismo lacaniano e a ambiguidade de sua exegese
de Hegel.
A
pretensão da estrutura,
exaustiva de todos os discursos,
resvala
nessa aporia pela qual, sem que se explique como ou porque, Hegel
aparece de fato em dois, e não apenas um, dentre os quatro que
reportamos.
Lacan
o tratou, como vimos, como o protótipo do discurso universitário,
este
que é um neodiscurso do mestre, mas não propriamente o
desmascaramento analítico da
suficiência do
saber
da consciência. Porém
o tratou também como "o mais sublime dos histéricos"
(p.36).
///
A
ausência de explicação não é simples - resulta em que não a
compreendemos ali onde se expõe.
Vejamos
o raciocínio. Este que se expressa tão logo o epíteto é lançado
para referenciar porém justamente Hegel como o enunciador perfeito
do discurso do senhor. A
dificuldade não é que assim seriam três os discursos de Hegel. Com
alguma boa vontade, digamos que Hegel é
para Lacan
o "espertinho",
como se costuma atribuir ao cafajeste, personificando o típico
discurso universitário, porque ele desvenda
o senhorio, mas quer o saber absoluto,
não o próprio sebhorio.
O
enunciado é apenas de um universitário que é ao mesmo tempo
histérico.
O
raciocínio
que explica por
que,
é precedido porém
pela
diferença dos
discursos do mestre/senhor,
e do analista.
O
saber
(S2)
é colocado no esquema do senhor, no lugar do escravo, na
segunda fração entre as duas que o compõem;
eis
o que
sabemos que
Hegel ensina. Já discurso universitário,
mas também no analítico,
o saber é colocado no lugar do senhor,
na primeira fração. Se
o saber mudou de lugar, informa Lacan, é que não é o mesmo saber.
Os
dois outros marcadores das fraçõe são o S barrado, que é o desejo
ou sintoma, e o a minúsculo, que é o objeto mais de gozar. Assim
cada esquema dará um mais de gozar numa posição irredutível ao
outro, conforme relações igualmente irredutíveis com os outros
três marcadores dentro do esquema.
Mas
aqui está interessando a ele marcar não apenas essa
mudança do saber em geral, da
posição do escravo no discurso do senhor, à posição do senhor
tanto no do analista quanto no do universitário, e
sim
a diferença
do saber em geral e o saber que o analista deveria haurir da análise,
enquanto seu objeto é a histeria, ou seja, o analista precisa haurir
o saber que
é o da histérica.
E
para ela, na transferência, o analista será o senhor/mestre, assim
como para todos, o analista deverá ser aquele que desvenda a verdade
na sua origem.
A
ordem
de sucessão dos discursos, universitário
hegeliano,
do senhor/mestre,
da histérica e analítico, vemos que
é
paradoxal
entre o decrescente e o crescente. É
decrescente, na ótica do saber
em geral. Hegel
descobre
o discurso do mestre, que é inteiro a explicação do desejo da
histérica, só
aquilo
de
que o analista deve estar ao par
em sua escuta do analisando. De fato, nessa ordem, cada um tira o seu
saber do outro, e sabe mas apenas porque sabe o que o outro sabe.
Mas na ótica da verdade originária, quem sabe é só o analista,
que ela é posterior
ao desejo, que a verdade da histérica não é um saber possível,
etc.
Assim
a ordem é crescente, e o Hegel-univeersitário é quem menos sabe,
por estar mais distanciado desse núcleo de insaber, de inverdade,
que é porém o objeto do saber, como da verdade. Lacan faz daí
vários
non
senses
engraçados sobre que na verdade proferida, a verdade enquanto a
coisa referenciada está ausente, toda
palavra é semi-palavra, etc., conforme a lógica do litotes que já
vimos ser a própria informação originária do desejo - não do
saber ou da verdade, que não o objeto do saber analítico enquanto
apenas corpo e gozo.
Então
Hegel é chamado de histérico, por ter designado o lugar
do saber
no
discurso do senhor,
como sendo o da verdade,
isto é, o trabalho e a consciência do escravo.
A
"Fenomenologia"
não é criticada
aí
por algum sensismo
pático
que confundiria autoconsciência
com aquele saber imediato da sensação. Para Lacan, se é
patológico, e não apenas ingênuo,
"Para quê toda essa fenomenologia se não se tratasse de outra
coisa?",
então
eis a explicação: "Porém o que chamo de histeria desse
discurso resulta precisamente do fato de que ele elude a distição
que permitiria perceber que mesmo que essa máquina histórica - que
de fato não é outra coisa senão a marcha das escolas e nada mais
- nunca atingisse o saber absoluto,
isto
seria apenas para marcar a anulação, o fracasso, o desvanecimento
ao término da única coisa que motiva a função do saber - sua
dialética
com o gozo.
O saber absoluto seria pura e simplemente a anulação desse término.
Quem quer que estude de perto o texto da Fenomenologia não pode ter
qualquer dúvida a respeito".
Primeiro
é o enigma sobre o que Hegel disse: se ele disse que o desejo do
senhor é se apoderar do saber do escravo, Lacan se pergunta como
poderia ainda vir,
"advir", qualquer
desejo ao senhor, se o escravo já o preenchia "antes que ele
soubesses o que podia desejar" (p. 34)
De um lado, Lacan coloca a filosofia como o que pode ter gerado no
senhor o desejo do saber - com efeito, é a questão que ele quer
pôr:
o que explica que senhores tenham se ocupado da filosofia, se
apropriado dela, desde Platão e esse Sócrates qure faz falar o
escravo, assim não se confundindo com ele?
Por outro a histérica, que se define por fabricar um homem, o seu
desejo, "que seria movido pelo desejo de saber" - porque o
objeto do saber seria ela mesma como a jóia do
seu (dele) gozo.
Ou
seja, se
o saber absoluto não
fosse atingido como o fim da dominação do escravo pelo senhor, o
que não
teria findado seria o
gozo do senhor
que consiste
porém nessa mestria de sua apropriação do saber trabalhar do
escravo. O fracasso da Fenomenologia está nisso pelo que ela não
explica esse gozo, mas assim,
ao
que parece,
segundo Lacan
o que resulta é o absurdo pelo qual se não acontece o saber
absoluto, o que acontece é entretanto o saber continuado,
de fato, pela ordem esquemática, esse saber sendo
axiomaticamente
sempre
continuado,
como
o travalho do escravo, na
dialética do
gozo do senhor.
Ora,
independente da "esperteza" do Hegel-universitário, que
enuncia um saber aboluto, pela própria aporia fenomenológica se
constata que ele não foi atingido, nem poderia ser, porque o seu
correlato possível é aquele saber sem
saber, ausente de verdade, do analista.
Eis a esperteza, a universidade é o correlato escravizante do saber
continuado,
esse jogo de interpretação e citação,
que porém alguém quer, deve
querer
- portanto,
histericamente,
um querer que não teria explicação por mais que a pessoa se
autoquestionasse, e
escrevesse ad nausea sobre isso, porque
extrapola tudo o que a consciência reflete,
especula ou dá a impressão de operar, nessa ambiguidade dela com o
que o corpo é quem faz. Um
querer que é puro dever nesse limite da consciência, que é o do
gozo, assim que se o franqueia.
Eis
o que não
entendi.
Lacan
se pergunta como pode o desejo do
saber
do escravo ainda
advir ao senhor
que já o tem todo e não sabe nada,
mas também nós podemos perguntar como
podemos desejar o saber continuado, se,
nesse
caso diferente, o
da universidade, é
o senhor que o produz?
Aparentemente o paralelismo é perfeito. A crítica que Lacan se
dispôs a fazer a
tudo
isso é esta: o que queremos é que se saiba sobre nós. Esse
o profundamente humano desejo de reconhecimento à Lacan, bem diverso
do hegeliano. Mas,
segundo o mesmo Lacan,
o que há para (a
universidade/a ciência) saber,
além do gozo
(a pré-lógica,
o ante-logos,
do sujeito)?
Se não há gozo, eis o problema, como
se diria,
eis a História;
mas
não sendo esse problema um conhecimento
possível de nós mesmos, além do gozo (que há
ou não
há).
Mas
o
que continua a meu ver questionável, é se será
mesmo verdade
ou faz mesmo sentido asseverar que nós queremos ser o objeto do gozo
universitário.
Pois
é essa a fórmula histérica do desejo de reconhecimento à Lacan
- querer ser o objeto do saber (do mestre), saber cujo conteúdo é
que a histérica é mulher, pode fazê-lo gozar.
Eis
porque o sintoma histérico é a
somatização. O
recalque normal implica apenas esquecer o desejo,
e a
este
saber
apenas como dever sabido,
de modo que o corpo funcione no
balé da vida, junto àqueles a quem queremos prover satisfação
segundo o esquema que nos satisfaz reconhecidamente.
A histérica não esquece o desejo, então o recalque se transfere
para o corpo,
porém com a mesma finalidade de fazer funcionar o desejo para o
outro, escandalosamente.
Lacan
sabe bem que a histérica não é o escravo - pois este, unicamente o
"hegeliano" para todos os efeitos da interpretação
lacaniana
-
é só o saber, não o gozo. E mesmo que o que ele saiba é que o
senhor goza dele mesmo, escravo, então este
também não precisa desejar. Assim para Lacan, rigorosamente
falando, o escravo não existe. Se
existisse, gozaria
e não saberia.
A
histérica, a mulher,
pelo contrário,
segundo
Lacan, nada
sabe do gozo do homem.
Se soubesse, ela
não
falaria. Ela
só o deseja,
como objeto do gozo dele. Ou
seja, se
não
falasse,
mas soubessse, não o
desejaria.
E já
que nós humanos nada dizemos, apenas falamos.
Independente
disso ser sinonímia na língua normal, o conceito lacaniano os
distingue. O dizer é o correlato de um saber efetivo, mas o falar é
o sintoma do desejo
e
só
o
que,
pelo nosso gozo, instrumentado pelo objeto a ou mais de gozar, ou
meio de produção, ou operador sintático de um sistema de signos,
pomos alguma coisa como um "saber". Nem que seja um mito.
Já é um ritual e de algum modo funciona.
Meu
questinamento alude
porém a essa defasagem da interpretação da Fenomenologia como
expondo um desenvolvimento que seria restrito "à marcha das
escolas e nada mais". Esse "nada mais" é bem
sintomático.
A
frase soa forçada, ela seria informativa se limitada "à marcha
das escolas",
mas o que o "e nada mais" quer dizer?
De fato, não suponho que Lacan desconheça o caráter
histórico-político
com
que Hegel balanceou a
sucessão das filosofias.
Mas
sim que aí ele jogou a sua própria tradução kojèviana
do que há na história enquanto intersubjetividade - entre um
sujeito e outro, somente há
morte.
Ou
sexo.
O
gozo fica entre ambos, como no sadismo. É o dever-ser. Assim
que dá satisfação e é reconhecido, só existe o sujeito mesmo.
Que é, por sua vez, o dever-ser, gozo do
Outro,
significante
1=Deus,
mais de gozar - mais alguma coisa difícil de entender.
Por
que não saímos matando todo o mundo que encontramos pela frente? Os
surrealistas recomendavam isso. Porque
essa astúcia da razão, esse rodeio do espírito, que é a
satisfação da polidez, etc.? E
até Breton foi fervorosamente hegeliano. Pelo
contrário, a fórmula explica
o nosso amor.
Mas
não explica a história, senão por uma espécie de pastiche
lacaniano
de Hegel. O primitivo, bem lá com suas coisas, seu ritualzinho que
se cinge a gozar sua representação; depois o significante mestre, o
Estado despótico
- eis o problema do reconhecimento.
Só que, em vez do saber absoluto - que não vimos Lacan explicar
como entendeu senão como o correlato do invectivado como tal saber
universitário,
de que também não vimos
o
conceito,
só a crítica - Lacan chega à
sua
superanálise, que ultrapassa a psicanálise apenas nisso que a
completa
bem aufgehobene,
de
modo a não permitir que chegue à
universidade
- porque?
O
que se faz em qualquer lugar público,
que
não se pode fazer por lá?
Porque
ela
é formação do marquês de peruquinha, e não da
gente
comum? Mas
não há nada mais elitista que universidade, prova-se o fato dela
ser reduto de lacanianos.
O
que é coerente, se em qualquer modernidade que se preze, elites há
muitas e de todos os tipos, inclusive de fumantes.
E está aí o Duby ("A história continua") para
testemunhar como os professores franceses sabem tirar totalmente o
povinho das universidades francesas,
não obstante lá como aqui haver leis que lhe facultam direito de
estadia.
Porque
o significante que ela tem para imprimir é o brioche que deviam ter
servido ao povo, segundo a sugestão
da
"rainha" - como Lacan a re - f/v - erenciou?
E porque não serviram?
Lá como aqui,
se trata de crime econômico
e não de crise econômica. Não
faltam os recursos, mas é que estão todos nos bolsos de alguém.
Mas
não é essa a história que Hegel estava expondo? E
o saber absoluto não coroa aquela parte que se prolonga, após
a revolução francesa, no
anti-clímax da História?
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